Laura Rodríguez
Laura Rodríguez
Diretora do Marine Stewardship Council (MSC) em Portugal e Espanha

Quando falamos de pesca sustentável estamos a referir-nos a populações de peixes num estado saudável, no respeito pelos ecossistemas e habitats e numa gestão pesqueira eficaz, capaz de se adaptar às circunstâncias ambientais e de cumprir com a legislação e normativas locais, nacionais e internacionais. 

E você? Já consome pescado de origem sustentável?

0
2

Na década de 1970, a pesca industrial espalhou-se por todo o mundo e cresceu ilimitadamente, levando ao colapso de várias zonas de pesca nas décadas seguintes. Em 1995, a FAO (Food and Agriculture Organization) da ONU publicou o Código de Conduta para a Pesca Responsável, um documento de referência que estabelece o que são pescarias sustentáveis. O código reconhece que quem tem o direito à pesca, tem a obrigação de o fazer de forma responsável, de modo a garantir a disponibilidade de recursos marinhos para as gerações futuras, respeitando simultaneamente a segurança alimentar, a redução da pobreza e o desenvolvimento sustentável.

Foi também na década de 1990, que nasceu o Marine Stewardship Council (MSC) com o objetivo de acabar com a sobrepesca, uma questão ainda premente cerca de 30 anos depois, já que segundo o relatório da FAO State of World Fisheries and Aquaculture 2020 a sobrepesca continua a aumentar, com mais de um terço (34%) das populações de peixes mundiais atualmente sobreexploradas. Este é o cenário numa altura em que as alterações climáticas colocam desafios adicionais à preservação dos recursos marinhos.  

Quando falamos de pesca sustentável estamos a referir-nos a populações de peixes num estado saudável, no respeito pelos ecossistemas e habitats e numa gestão pesqueira eficaz, capaz de se adaptar às circunstâncias ambientais e de cumprir com a legislação e normativas locais, nacionais e internacionais. 

O maior contributo da atividade do MSC ao longo de um percurso de quase três décadas, foi concretizar o conceito de pesca sustentável num Padrãode base científica (o Padrão de Pesca do MSC), que permite a uma pescaria, associação ou organização avaliar se as suas atividades pesqueiras respeitam o meio marinho, assim como identificar corretamente os produtos na etiqueta das suas embalagens com o selo azul MSC (o Padrão da Cadeia de Custódia do MSC). A presença deste selo nos produtos do mar assegura o respeito pelo estado das espécies marinhas, a gestão de pesca eficaz, a redução do impacto sobre os ecossistemas marinhos e matérias-primas com origem em pesca sustentável. 

Na cadeia de valor do pescado todos têm responsabilidades e benefícios a retirar da certificação do MSC. Da parte dos governos, há o dever de acelerar a concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e de tomar decisões com base em informação científica e em mecanismos efetivos de controlo. A certificação MSC complementa a ação dos governos. Ainda recentemente, numa entrevista, a secretária de Estado das Pescas, Teresa Coelho, afirmava: “estamos disponíveis para colaborar com [o] setor, como fizemos na certificação da sardinha entre 2010 e 2013 [pelo MSC], uma vez que se trata de certificações [a do MSC e outras na área ambiental] que asseguram a sustentabilidade na captura e valorizam o produto, facilitando o acesso a determinados mercados.” 

Há também responsabilidade por parte dos pescadores, que devem assegurar que o impacto da sua atividade é minimizado. A pesca sustentável poderá gerar mais 16 milhões de toneladas por ano ao promover stocks de peixes saudáveis e abundantes – como é um fator diferenciador, podendo ser usada como uma ferramenta de visibilidade para o pescador que cumpre os critérios mais exigentes de desempenho ambiental. 

A indústria transformadora dá também um contributo importante se selecionar matérias-primas certificadas pelo MSC. E, claro, o consumidor tem uma palavra final neste processo. Promover um consumo de pescado responsável importa, sobretudo em Portugal, em que se regista o mais elevado consumo de pescado per capita da UE. De acordo com o estudo de consumidores realizado pela GlobeScan em 2020 em Portugal, 54% dos consumidores diz já ter tomado alguma medida no último ano para proteger os oceanos e 90% estaria disposto a tomar medidas no futuro com o mesmo objetivo. Os consumidores estão dispostos a reconhecer e premiar quem fornece credenciais de sustentabilidade e, ao mesmo tempo, mostram grande interesse por guias e ferramentas que os ajudem a adotar um consumo responsável. 

A sustentabilidade do pescado é um assunto complexo, para um consumidor pode ser difícil identificar se um stock está num bom estado  ambiental e, por isso, o selo azul do MSC pode ajudar a fazer escolhas mais informadas. Entendemos que os consumidores desempenham um papel ativo no movimento a favor da pesca sustentável. Ao escolher pescado sustentável, os consumidores estão a apoiar as fileiras do pescado que se comprometem com a sustentabilidade dos oceanos.

Em quase 30 anos de atividade, o nosso programa, que é voluntário, já engloba 516 pescarias (446 certificadas, 70 em processo de avaliação completa e 25 suspensas) no mundo, que representam cerca de 19% de todas as capturas mundiais da pesca extrativa, demonstrando que a pesca sustentável é possível. As pescarias são auditadas de forma independente a cada ano para assegurar que continuam a cumprir os nossos requisitos e acompanhar os possíveis progressos de condições previamente estabelecidas, podendo resultar numa suspensão às pescarias se os requisitos ou condições não forem cumpridas. 

As novas gerações merecem um futuro, um Oceano saudável e desfrutar dos recursos marinhos tão valiosos para o equilíbrio do planeta. Cabe a todos nós contribuir para que isso aconteça.

Foto de destaque por Paul Einerhand

Artigo anteriorAQ Volta passará a fazer parte da Aquila Clean Energy
Próximo artigoPessoas querem ser mais sustentáveis, mas apenas 5% assume estar a praticar estilo de vida mais “eco”

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of