Mônica Mesquita
Mônica Mesquita
Investigadora do MARE, polo da NOVA School of Science and Technology (FCT NOVA)

Achamos que são os pescadores os grandes culpados do lixo marinho? E achamos que a solução é puni-los? Desumano! A solução não passa por punir nem o pescador, nem o migrante, nem o turista, mas por construir de forma coletiva, na base do diálogo e da reeducação de todos nós, soluções. Entender o que precisam as comunidades e o que têm a dizer sobre a matéria e a partir daí formular um novo conhecimento e respostas com pertença a todos.

Afinal, quais são os sintomas das zonas costeiras?

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Diante dos choques culturais mundiais, da atual crise económica, sanitária e do movimento de pessoas em contínua deslocação, crescem questões emergentes ambientais e sociais ligadas às zonas costeiras. São admiráveis, mas acabam por se tornar “reféns” de forças socioeconómicas, culturais e biofísicas e prejudicam não só as comunidades locais, como todos nós.

Por isso, hoje, cabe-nos escrever para fazer um apelo, sobretudo aos investigadores e comunicadores: saiamos das nossas caixas epistemológicas, substituindo o pensamento que nos isola pelo pensamento que nos une – a cidadania planetária. É urgente procurar formas de diálogo que transversam disciplinas e culturas, que transpõem fronteiras do nosso conhecimento científico. Através do diálogo transdisciplinar se podem superar questões ambientais e sociais tanto à escala global como local.

E se fôssemos à procura dos sintomas das ameaças ambientais globais das zonas costeiras, a minha área por excelência enquanto investigadora do MARENOVA? Os atos não sustentáveis das comunidades piscatórias, como o abandono de redes de pesca, e as leis e a fiscalização na pesca artesanal, muitas vezes inadequadas, que existem são sintomas desta “doença”.

Mas não são os únicos. Também a migração é um sintoma com a questão da manutenção da ordem nacional, a questão de propriedade. Assim como a saúde pública baseada no turismo, e basta olharmos para a Costa da Caparica que ainda detém um bairro de lata há mais de 40 anos onde as famílias não têm acesso a água nem saneamento ou, por exemplo no verão, recebe pessoas que não está pronta para suportar.

Achamos que são os pescadores os grandes culpados do lixo marinho? E achamos que a solução é puni-los? Desumano! A solução não passa por punir nem o pescador, nem o migrante, nem o turista, mas por construir de forma coletiva, na base do diálogo e da reeducação de todos nós, soluções. Entender o que precisam as comunidades e o que têm a dizer sobre a matéria e a partir daí formular um novo conhecimento e respostas com pertença a todos.

É nesta base do diálogo que o Observatório de Literacia Oceânica tem desenvolvido com as comunidades piscatórias um forte trabalho – trazendo pescadores(as), jovens a seniores, para serem investigadores(as) das suas próprias práticas, despertando o sentimento de pertença e de situação política. Tem, também, mantido as suas bases abertas para que a busca pelo diálogo transverse as conjecturas existentes num laboratório de investigação, permitindo nascer diálogos como este próprio artigo de opniões.

É urgente o “diálogo” entre os conhecimentos científico, técnico, local e tradicional, elementos-chave para dar resposta aos sintomas impregnados nas fronteiras sociais existentes nas zonas costeiras. Esta visão transpõe as barreiras epistemológicas dos saberes, alcançando a tal e crucial transdisciplinaridade – que se destaca como forma de atuar para o bem-estar de toda e qualquer vida costeira.

A decolonização do conhecimento costeiro – uma alternativa proactiva e afirmativa de reconhecimento de outros saberes  e fazeres intrínsecos às zonas costeiras – é um caminho para combatermos os sintomas costeiros! Afinal, o seu maior sintoma ainda reside na colonialidade intelectual – supremacia de alguns conhecimentos em detrimento de outros.

Artigo realizado com o contributo de Vera Fortuna, do MARE-ULisboa.

Foto de Maksym Kaharlytskyi

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