Zara Teixeira
Zara Teixeira
Investigadora do MARE, Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, polo da Universidade de Coimbra.

Ao longo de décadas, tomamos como garantidos os préstimos da natureza e não acautelamos o seu equilíbrio e bem-estar. Pilhamos, exploramos e esgotamos os recursos de que tanto beneficiamos. E o que agora presenciamos é uma natureza que se cansou de sofrer baixinho. Levanta tempestades cruéis, abre caminho a novas doenças e seca cultivos. É como um trabalhador em greve que faz valer os seus direitos e mais dia menos dia entrará em serviços mínimos. Ou, na pior das hipóteses, ficará fora de serviço.

Lindo serviço! E se a natureza entra em greve?

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Estar de serviço significa estar a trabalhar, a exercer as funções profissionais. Ora cada um de nós aceita que tal só será possível (ou pelo menos desejável) mediante retorno, em muitos casos financeiro. Pelo menos quando o ato de servir nos soa a obrigação.

Se isto é verdade para o ser humano, porque não para a natureza? Concentremo-nos por momentos em alguns exemplos de como dependemos dos recursos naturais. 

Suprimos a nossa necessidade de comer recolhendo pescado, cultivando produtos agrícolas e domesticando animais (e não pense que os hambúrgueres artificias, e outros que tais, eliminam esta ligação à natureza. Quando nos dizem que se baseiam em células estaminais, estão claramente dependentes de algo que provém dos originais). Beneficiamos de água de qualidade, da segurança daquela casa à beira-mar, e da previsibilidade do clima que nos garante o escaldão anual tão perigoso quanto apetecível. Movemo-nos de cá para lá, e de lá para cá, utilizamos tecnologias, e falamos com quem não está, sempre tirando proveito da energia que o planeta nos dá. Passeamos pelas praias, cruzamos trilhos de bicicleta e, nos momentos de maior cansaço, deixamo-nos estar, só assim, a relaxar, debaixo de uma árvore, quem sabe até a cantar.

Este é o serviço público que nós queremos — no sentido em que o conjunto das obrigações a que a natureza está sujeita visam o interesse e o bem comum —, mas estou em crer que não aquele que merecemos e, muito seguramente, não aquele que atualmente teremos. 

Ao longo de décadas, tomamos como garantidos os préstimos da natureza e não acautelamos o seu equilíbrio e bem-estar. Pilhamos, exploramos e esgotamos os recursos de que tanto beneficiamos. E o que agora presenciamos é uma natureza que se cansou de sofrer baixinho. Levanta tempestades cruéis, abre caminho a novas doenças e seca cultivos. É como um trabalhador em greve que faz valer os seus direitos e mais dia menos dia entrará em serviços mínimos. Ou, na pior das hipóteses, ficará fora de serviço.

Estamos por isso numa fase crítica de negociação. Os ecossistemas naturais são de uma extrema resiliência, capazes de voltar à sua forma original depois de sofrerem os impactos mais ferozes, mas há que os convencer a tal. Um gestor diria que é preciso ter estratégia e apresentar argumentos válidos. Um biólogo não discordaria desta abordagem.

Na estratégia realçaria a necessidade de recuperar as funções dos ecossistemas, como por exemplo a sua capacidade de produzir e reciclar matéria e energia. E como argumentos válidos destacaria as inúmeras soluções imaginadas, testadas e implementadas por investigadores em todo o mundo e que nos permitem escolher a direção que tendencialmente leva ao equilíbrio. 

Com esta estratégia e argumentos estaremos a cuidar da natureza e esse é o nosso retorno.  Se podia também ser financeiro? Podia, não para a natureza, claro está, que de nada se valeria dele. Mas para quem dela cuida. Para quem ela olha e percebe que esta não brinca em serviço.

Foto de Kelly Sikkema

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