Como podemos gerir melhor a água?

A mais recente edição das “Welectric Talks, powered by Helexia” teve como convidada Filipa Saldanha, Deputy Director do programa de desenvolvimento sustentável da Fundação Calouste Gulbenkian. A conversa andou à volta da escassez de água e do que cada um pode fazer para ser uma solução do problema.

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A água é um elemento-base da vida e o nosso corpo usa-a em todas as suas células, órgãos e tecidos. Além disso, utilizamos este recurso em todos os planos da nossa atividade, com particular destaque para a agricultura e indústria.

Olhando para uma representação do nosso planeta, poderá ser difícil ficar preocupado com a escassez da água, já que esta cobre 70% da sua superfície. Todavia, apenas podemos contar, para o nosso consumo, com 0,3% de toda a água do mundo. A restante é salgada, está em estado sólido nos polos, retida em aquíferos subterrâneos ou circula, em estado gasoso, na atmosfera.

Chamamos desastres naturais à desertificação e às cheias, mas, em muitos casos, foi a atividade humana, que ao longo de várias décadas, prejudicou o ciclo hidrológico, tornando o solo incapaz de reter a água das chuvas.

Portugal enfrenta um risco de escassez muito significativo nas próximas duas décadas e é urgente tomar medidas para contrariar ou minorar os impactos desta preocupante realidade.

Para nos ajudar a compreender melhor a situação, a nova ronda das “Welectric Talks, powered by Helexia” tem como convidada Filipa Saldanha, Deputy Director do programa de desenvolvimento sustentável da Fundação Calouste Gulbenkian.

💧 1. Este ano promete ser já um teste significativo à resiliência de Portugal face à escassez de água, devido à falta de precipitação. Apesar de terem sido difundidas algumas notícias sobre o assunto, os portugueses estão realmente preocupados com o tema, ou isso só acontecerá se faltar água na torneira?

“Acredito que os portugueses estão cada vez mais preocupados com a situação até porque temos tido secas cada vez mais frequentes, mais severas e mais prolongada nas últimas décadas. Mas ainda há trabalho a fazer”

“O grande desafio passa por passar da perceção à ação sem que tenha de faltar água na torneira”

Foto: Lisa Fotios/Pexels

“Não podemos falar só de água e da problemática da escassez de água em períodos de seca e aqui acredito que a comunicação social possa ter um papel muito relevante se der uma cobertura editorial a este tema de forma mais consistente e mais continuada no tempo e não só em períodos de seca”

“Acredito que as marcas podem ter um grande papel de informação e de mobilizar o consumidor – as etiquetas de eficiência energética de alguns eletrodomésticos também já incluem alguma informação sobre o consumo de água”

“Relacionamo-nos com a água enquanto utilizadores diretos de água nas nossas casas (muito relacionado com os nossos consumos domésticos) e aí já começa a haver alguma preocupação de racionalização do consumo através de medidas muito básicas, como fechar a torneira quando lavamos os dentes, como introduzir corretores de caudal nas nossas torneiras, etc.”

“O cidadão comum é também utilizador indireto de água e aqui é onde há mais trabalho a fazer e onde se pode introduzir também o tema da pegada hídrica, ou seja, qual é que é a quantidade de água utilizada para produzir certos bens de consumo”

“As nossas escolhas alimentares podem ter um grande impacto. Sobre isso, o consumidor não tem grande informação”

“É importante introduzir uma narrativa de sustentabilidade nos produtos alimentares onde não pode ser só a gestão da água o critério; temos de falar de outros critérios como a saúde e a pegada de carbono”

“Acredito que se as marcas e os retalhistas começarem a incluir mais informação sobre esta matéria [pegada hídrica] que pode induzir a alteração dos comportamentos dos consumidores”

💧 2. O Programa Gulbenkian Água tem concentrado a sua atenção principalmente no setor agroalimentar, o que em Portugal tem uma razão muito clara, já que 75% do nosso consumo de água está ligado à agricultura. Como é que a Fundação tem atuado e qual o impacto que as suas ações têm tido?

“Portugal é considerado um país de levado stress hídrico até 2040. Temos urgentemente de começar a antecipar cenários de escassez de água, ou seja, temos um risco elevado de ter de gerir pouca água face às necessidades reais do país”

Foto: Karolina Grabowska/Pexels

“Em Portugal, a agricultura é responsável por 75% da utilização de água. É um número muito semelhante quando comparado, por exemplo, com a França e Grécia. Isso é devido a termos um clima Mediterrâneo. A nossa estação mais quente é também a nossa estação mais seca, por isso precisamos efetivamente de rega na nossa agricultura para nos mantermos competitivos, mas isso não significa que a agricultura tenha uma abordagem despesista relativamente a água, até pelo contrário: os agricultores são aqueles que estão mais interessados em encontrar soluções porque são aqueles eles vão sofrer mais nestes cenários preocupantes.

“Após uma grande investigação feita pelo ao C-LAB que nos deu um retrato fiel do setor, com base em dezenas de entrevistas e inquéritos, e uma discussão com agricultores e outras entidades da cadeia de valor do agroalimentar, para discutir quais poderiam ser as medidas de maior impacto, definimos um plano de ação dividido em três grandes frentes. A primeira frente é tentar contribuir para acelerar a transformação do setor agroalimentar. Como? Financiando iniciativas de demonstração de boas práticas de gestão da água de rega. Para a Fundação Calouste Gulbenkian, o grande desafio da deficiência passa precisamente pela adoção de novas tecnologias no planeamento e controle da rega. É aí que iremos querer focar a nossa atuação. Uma segunda grande frente está relacionada com as temáticas da comunicação e nos últimos tempos temos desenvolvido várias ações de formação, incluindo para jornalistas, para que possamos colmatar este déficit de informação no debate sobre a gestão da água no país. Por último criamos uma rede stakeholders que inclui entidades-chave do setor agroalimentar em Portugal, incluindo os agricultores, para que possamos contribuir para um debate informado e atualizado sobre este assunto de acordo com as conclusões do estudo”

💧 3. De acordo com as conclusões do estudo “O Uso da Água em Portugal”, realizado pelo C-Lab entre 2019 e 2020, ainda há uma percentagem muito significativa de agricultores (85%) a quem não é feita qualquer exigência relativamente à utilização da água na sua produção. Esta situação não devia ser alterada? Como é que poderia ser implementado este controlo?

“Quando fizemos essa pergunta aos agricultores o que nos responderam foi que quando estão a vender os seus produtos os critérios mais importantes são a qualidade e o preço. Depois vem o aspeto do produto, ou seja, o calibre. Um quarto critério é origem – onde é que foi produzido determinado produto. Só no fim da cadeia é que estão os critérios agroambientais. Ou seja, menos de um quinto dos produtores referiu que tem algum tipo de exigência relativamente à critérios agroambientais. Como é que isso pode ser mudado? Mais uma vez aqui, as marcas e os retalhistas podem ter um efeito muito grande de induzir a mudança, pois têm influência não só sobre os produtores, mas também nos consumidores”

“As marcas e os retalhistas podem ter um efeito muito grande de induzir a mudança, pois têm influência não só sobre os produtores, mas também nos consumidores”

“98% de agricultores portugueses vendem no mercado nacional ou sejam estamos a falar de uma fatia significativa que pode ser influenciada se os retalhistas trabalharem lado a lado com eles para conseguirem induzir e incutir normas agroambientais quando fazem as suas compras a determinados produtores agrícolas nacionais. Por isso, acredito que essa mudança possa efetivamente ser feita através da introdução de normas ambientais e dos novos standards nunca numa ótica de obrigatoriedade, mas sim através de uma abordagem construtiva”.

💧 4. O investimento em tecnologia é inevitável para decidir quando, quanto e como regar, mas a lista de equipamentos necessários para a agricultura de precisão é extensa, desde as sondas de humidade às estações meteorológicas e mesmo, em certas situações, à utilização de drones. Tem sido possível mostrar aos agricultores que uma boa gestão da água é também um fator que concorre para a sustentabilidade económica da sua atividade?

“Esse é precisamente o nosso grande foco de atuação, da Fundação Calouste Gulbenkian. Um dos grandes resultados do estudo foi que 85% dos agricultores que já adotam tecnologias avançadas não têm dúvidas que conseguem poupar uma grande quantidade de água. Nalguns casos chega até 50%, mas também referem que acabam por poupar em outros fatores de produção e indiretos como a energia ou os fertilizantes ou o tempo”

Foto: Tom Fisk

“Os agricultores referem diretamente que, ao conseguirem otimizar os seus processos de planeamento e controle de rega, acabam por conseguir poupar energia, porque a rega é mais otimizada”

“Se adotarem técnicas de agricultura de regra de precisão conseguem utilizar apenas aquela água que precisam e também reduzem assim o número de fertilizantes. E, mais uma vez, se conseguirem controlar a rega à distância, através do telemóvel ou do computador, conseguem ter mais tempo para outras funções e assim ser mais produtivos”

“Na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2021 abrimos um grande concurso para financiar iniciativas de boas práticas na gestão da rega. Neste momento, estamos a apoiar cinco grandes projetos que cobrem de norte a sul do país, que abrangem muitas culturas, desde o milho, arroz, cereais, pera, maçã, tomate, vinho e olival e que vão começar no terreno já nesta campanha agrícola de 2022, ou seja, entre abril e maio. Com isto, vamos conseguir capacitar mais de 800 agricultores no terreno e cerca de 7 mil agricultores através de meios digitais e dar a conhecer quais é que são os benefícios de adotarem as tecnologias mais avançadas”

85% dos agricultores que já adotam tecnologias avançadas não têm dúvidas que conseguem poupar uma grande quantidade de água.

💧 5. Relativamente às ajudas que a tecnologia nos pode dar para tentarmos resolver a escassez da água: a dessalinização pode ser uma possibilidade? O Plano Regional de Eficiência Hídrica do Algarve (PREH) apresentado recentemente inclui um investimento significativo (200 milhões de euros) para um projeto desta natureza no Algarve…

“A dessalinização tem de ser uma possibilidade a considerar, mas tem de ser feita, acima de tudo, uma análise técnica completa”

“Para um país como Portugal sendo um país costeiro é óbvio que não poderíamos deixar pelo menos de considerar. Mas o que eu acho importante é que nós não podemos politizar este este tema. Temos que fazer uma análise rigorosa e acima de tudo técnica, de custo-benefício, onde temos que integrar quer os fatores financeiros, quer os fatores socioeconómicos, ambientais e de energia necessária”

“É importante identificamos as duas grandes forças quando falamos da gestão da água em Portugal. A primeira são as alterações climáticas que são responsáveis por um aumento de temperatura e uma diminuição da precipitação, principalmente no sul do país por isso não podemos deixar de apostar na mitigação das alterações climáticas – apostando na descarbonização, no crescimento de energias renováveis, bioeconomia azul.

Do outro lado temos um aumento da pressão pela procura de água, o que pode ser causado pelo aumento de consumo por utilização excessiva ou ineficiente ou por desperdícios. E é aqui que começa a narrativa de adaptação às alterações climáticas que é onde Portugal tem falhado e tem trabalhado muito pouco”

“É no âmbito da adaptação às alterações climáticas que temos que por todas as soluções em cima da mesa”

💧 6. Indiretamente, a pecuária tem um peso muito significativo no uso da água, (cerca de 1/3 da utilização mundial) não para consumo dos animais, mas para produzir vegetais para o seu alimento. Será que nós, enquanto consumidores, ao reduzirmos o consumo de produtos de origem animal, como a carne e os laticínios, por exemplo, podemos ter um impacto positivo para a poupança de água?

“Há efetivamente estudos que indicam que o consumo de vegetais tem uma pegada hídrica muito menor, mas esses estudos o que fazem normalmente é avaliam apenas a pegada hídrica; não avaliam outros componentes muito importantes, como por exemplo, as questões da saúde ou mesmo a pegada de carbono e mais do que isso avaliam uma média, ou seja, o que esses estudos normalmente fazem é que pressupõem todos que o vegetal “a” é produzido da mesma maneira pelo produtor “a”, “b” e “c” e isso não acontece. Muitas vezes pode acontecer que o vegetal “a” seja produzido de forma completamente catastrófica relativamente à pegada de carbono e mesmo hídrica e podemos ter produtores de carne que fazem as coisas muito bem feitas”

“As marcas e os retalhistas podem ter um papel fundamental ao informar o consumidor sobre quais é que são os processos de produção de determinado produto alimentar”

“Aqui o que o que é preciso fazer é conhecer quais é que são os métodos de produção e para isso, mais uma vez, as marcas e os retalhistas podem ter um papel fundamental ao informar o consumidor sobre quais é que são os processos de produção de determinado produto alimentar porque só assim é que nós conseguimos decidir de forma racional. Eu evitaria heurísticas e tentaria avaliar caso a caso como é que cada produto é efetivamente produzido”

“A questão da transparência na produção e de se fazerem análises de ciclo de vida de determinado produto são muito importantes para termos mais informação para conseguimos decidir de forma racional e não seguir modas”

💧 7. A questão da escassez de água não afeta as regiões do planeta da mesma forma. Na maior parte dos casos, são as regiões mais pobres, as mais afetadas, apesar de ser nos países mais industrializados que se verifica um consumo individual de recursos muito maior. Como é que se pode corrigir esta injustiça?

“Esse é o grande tema das alterações climáticas, talvez o mais relevante que é o tema da injustiça social e efetivamente só vamos conseguir combater com mais financiamento nomeadamente mais financiamento para a adaptação às alterações climáticas nos países do sul global que são aqueles que sofrem mais e os que são mais vulneráveis com os impactos climáticos. Nós na última cimeira do clima, na COP26, uma das secções do acordo de Glasgow diz e apela aos países mais desenvolvidos para duplicar o financiamento para adaptação às alterações climáticas até 2025 e isto face a 2019, ou seja, estamos a falar de mobilizar mais de 40 mil milhões de dólares até 2025 dos países mais ricos para os países mais pobres. Isto é óbvio que não vai ser não vai ser suficiente, por isso não sendo suficiente temos aqui uma lacuna de financiamento muito grande. Isto significa que o capital privado, cada vez mais, tende a assumir uma importância também no combate à crise climática, capital privado esse que vem das empresas, das fundações etc”

Foto: FAO/Olivier Asselin

“O prémio Gulbenkian para a Humanidade desta última edição, a 2ª edição, de 2021, foi atribuído ao Global Covenant of Mayors for Climate & Energy que é a maior aliança climática das cidades a nível global, envolvendo mais de 11 mil cidades de todo o mundo. Este ano o prémio, de um milhão de euros, vai ser utilizado a 100% para dois países na África Subsaariana, um é o Senegal, o outro é os Camarões. No caso do Senegal, para onde vai a maioria dos fundos, 700 mil euros vão para o fornecimento de água potável a famílias desfavorecidas em cinco cidades no Senegal. E é exatamente isso que estamos a tentar fazer – combater a injustiça social e fazer com que estas populações sejam mais resilientes às questões das alterações climáticas, nomeadamente a escassez hídrica que é muito evidente naquele país e esperemos obviamente que isto possa ter um impacto não só a nível da água, mas também ao nível da economia na redução das desigualdades de género”

💧 8. Enquanto cidadã, tem sempre presente na sua vida esta preocupação com a sustentabilidade. Em que é ela se se materializa?

“É uma preocupação que se materializa na minha vida até porque tenho três filhos e não quero deixar de lhes passar também estas preocupações embora eles, hoje em dia, muitas vezes, já vêm para casa com mais informação do que eu pensei que eles pudessem ter, pelo que as escolas também estão a fazer um caminho importante nesta matéria”

“Tenho inúmeras coisas que faço em casa: todas as torneiras têm redutor de caudal, aproveito o depósito da água da máquina de secar para lavagem de chão, os duches têm que ser rápidos (e os miúdos sabem isso), já eliminei os descartáveis em várias dimensões da minha vida, como as festas dos miúdos, e noutras dimensões tento reduzir, como, por exemplo, usando shampoos secos. Temos uma lista infinita de coisas, como boleias partilhadas. O desperdício alimentar é muito reduzido na nossa casa”

“Mais importante do que fazer uma lista exaustiva e onde eu penso que posso contribuir um bocadinho mais e a forma mais fácil de nós conseguimos mudar é se olharmos para determinados princípios – e os princípios dos R’s ajudam-nos muito – é a questão de repensar o consumo: repensar, reduzir, reparar, reutilizar e obviamente reciclar. Se utilizarmos estes princípios e os conseguirmos aplicar a determinadas dimensões e hábitos de consumo da nossa vida acho que é mais fácil, ou seja, utilizamos esses princípios e aplicamos, por exemplo, às questões da mobilidade, da energia, do vestuário e de outros produtos. Por exemplo, durante muitos anos eu só comprei roupa em segunda-mão para os meus filhos ou, então, reutilizam entre primos e irmãos. Por isso, acho que essa pode ser uma maneira fácil de nós mudarmos efetivamente os nossos hábitos de consumo. É pegar em determinados princípios, aqueles que são mais viáveis no nosso dia a dia, e depois aplicá-los às grandes dimensões de consumo da nossa vida”

“Se utilizarmos os princípios dos R’s e os conseguirmos aplicar aos hábitos de consumo da nossa vida, é mais fácil contribuir para a sustentabilidade”

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