Maria Adelaide Ferreira
Maria Adelaide Ferreira
MARE-FCUL (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa)

Cerca de 50 a 80% do oxigénio a nível mundial (o oxigénio que respiramos) é produzido no Oceano, maioritariamente por minúsculos organismos fotossintéticos; o Oceano (no singular porque é só um, todo interligado, do Ártico ao Antártico, do Atlântico, ao Índico e ao Pacífico) é também, para milhões de pessoas a nível mundial, incluindo nós, portugueses, fonte principal de alimento (para o corpo e para o espírito), e generoso gerador de subsistência e emprego, sem lhe darmos nada em troca.

Salvar o nosso Oceano, Proteger o nosso Futuro

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“Salvar o nosso Oceano, Proteger o nosso Futuro” é o lema da Conferência do Oceano das Nações Unidas que decorrerá em Lisboa, de 27 de Junho a 1 de Julho, e onde se irá avaliar o progresso na implementação do objectivo de desenvolvimento sustentável (ODS) 14 da agenda 2030 das Nações Unidas – dedicado à conservação e uso sustentável do oceano, mares e recursos marinhos até 2030.

Por muito distante ou indiferente que esta Conferência do Oceano nos pareça, nela vai, de facto, discutir-se a protecção do nosso futuro. Parece-lhe estranho?

Cerca de 50 a 80% do oxigénio a nível mundial (o oxigénio que respiramos) é produzido no Oceano, maioritariamente por minúsculos organismos fotossintéticos; o Oceano (no singular porque é só um, todo interligado, do Árctico ao Antárctico, do Atlântico, ao Índico e ao Pacífico) é também, para milhões de pessoas a nível mundial, incluindo nós, portugueses, fonte principal de alimento (para o corpo e para o espírito), e generoso gerador de subsistência e emprego, sem lhe darmos nada em troca. Posso dar-lhe dois exemplos?

– Pagamos ao pescador e ao restaurante por nos fazer chegar o peixe (de preferência, grelhado, com batatinhas e salada), mas as sardinhas na brasa, o polvo no arroz ou o marisco em qualquer mariscada são produzidos pelo Oceano, a custo zero; 

– Pagamos à marítimo-turística pelo passeio de barco e pelo conhecimento dos melhores locais para observar golfinhos, mas os golfinhos que vemos, o cheiro a mar, as paisagens marinhas e costeiras, que nos preenchem o espírito, são-nos integralmente oferecidos pelo Oceano.  

Pagamos, afinal, pelo trabalho dos intermediários (em empregos gerados pela exploração de serviços produzidos e oferecidos pelo Oceano) e nada ao Oceano. E o que seria de nós se deixasse de haver sardinhas para pôr na grelha, polvos para juntar ao arroz, golfinhos para observar e os tais organismos fotossintéticos que produzem o oxigénio que respiramos?

Sabe-se hoje que esses seres fotossintéticos são sensíveis à poluição por plástico que assola o Oceano, diminuindo a sua capacidade de produzir oxigénio… além dos plásticos, as alterações climáticas, também de origem humana, estão a transformar todo o Oceano, que está progressivamente mais quente, mais ácido e com menos oxigénio. Estas e outras alterações e pressões, como o impacto directo e crescente da pesca, navegação e outras actividades marítimas, afectam cada vez mais a vida marinha, acelerando a crise de biodiversidade global. Dependemos do Oceano, de um Oceano saudável, mas a saúde do Oceano está muito ameaçada por nós.

Na Conferência do Oceano, vai discutir-se o progresso das 10 metas do ODS 14 – que visam a prevenção e redução significativa de todos os tipos de poluição marinha, a gestão sustentável das pescas e a protecção, conservação e gestão do meio marinho – e novas e melhores estratégias para recuperarmos a saúde do Oceano até 2030, em pouco mais de 7 anos. 

E não basta travar a degradação do ecossistema oceânico e o declínio da vida marinha, já muito depauperados. Teremos que procurar e criar condições para reencontrarmos no futuro, o quanto antes e tanto quanto possível, a diversidade e abundância de vida do passado, quando o oceano nos parecia inesgotável. Assim, ao salvar o Oceano, estaremos a proteger o nosso futuro.

Foto de destaque por KAUE FONSECA

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