O que podemos aprender com os animais sobre como resistir a grandes incêndios e recuperar destes? É esta a pergunta de partida do projeto de Verónica Policarpo, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa), que foi contemplada com uma Bolsa (Consolidator Grant) do European Research Council (ERC) no valor de cerca 2 milhões de euros.

Nos próximos cinco anos, o projeto “Animal Abidings: recovering from disasters in more-than-human communities (ABIDE)” propõe-se explorar a resiliência e a capacidade de recuperação após desastres a partir do que ocorre com os animais. O objetivo passa por encontrar novas possibilidades de viver e lidar com fenómenos cada vez mais frequentes como as inundações, os furacões, os tornados e os fogos florestais, que decorrem das alterações climáticas e da exploração humana dos recursos naturais.

A investigação centra-se na comparação entre três países fustigados por graves incêndios todos os anos: Portugal, Brasil e Austrália.

Com o contributo de sociólogos, antropólogos, etólogos, biólogos e geógrafos, o projeto ABIDE vai reunir histórias e dados relativos às modalidades de adaptação e resistência das mais variadas espécies a situações de crise, exemplos de sinergias entre humanos e animais, bem como procurar conhecer o modo como os animais são ou não considerados nas estratégias de gestão de risco, planos de emergência e na reconstrução pós-catástrofe.

“Pretendemos aprender com as outras espécies como construir modos de vida mais sustentáveis e resilientes nestes territórios ameaçados”, diz Verónica Policarpo que considera que “esse conhecimento multiespécies será decisivo para enfrentar os incêndios nas várias fases do ciclo de gestão”. Em seu entender, “um contributo deste projeto consistirá precisamente em reconhecer os animais não humanos como participantes legítimos e de relevância na governança dos desastres, em particular dos incêndios florestais”.

Numa primeira fase, serão estudados os contextos específicos de cada país e de cada região e identificadas as espécies a ser acompanhadas. Num segundo momento, através da observação participante e de entrevistas às populações (Estado do Amazonas no Brasil; Nova Gales do Sul na Austrália; e Pinhal Interior em Portugal), serão recolhidos dados sobre o modo como as comunidades multiespécies vivem e recuperam depois dos incêndios. O trabalho desenvolvido pretende constituir-se como um contributo estrutural destinado a informar a ação de governos, ONGs, agentes de proteção civil, corporações de bombeiros e populações.

Para Verónica Policarpo, a bolsa “será decisiva para consolidar a área de estudos Human-Animal em Portugal e a nível internacional”.

“Marca um ponto de viragem na minha carreira. É o reconhecimento da importância de trazer os animais não humanos para a linha da frente das nossas preocupações – como cientistas e como cidadãos”, acrescenta.

Verónica Policarpo é doutorada em Ciências Sociais (Sociologia) pelo ICS-ULisboa, coordenando na mesma instituição o curso de pós-graduação “Animais e Sociedade” e o projeto “CLAN – Amizades entre crianças e animais: desafiando as fronteiras entre humanos e não humanos nas sociedades contemporâneas”. Integra os grupos de investigação do ICS “Percursos de vida, Igualdade e Solidariedade: Práticas e Políticas” e “Ambiente, Território e Sociedade”.

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