Logo na sua apresentação, o Dacia Spring deixou bem patentes as suas qualidades, enquanto utilitário elétrico, de clara vocação citadina. Sem pretensões e direto ao assunto, o Spring tem um preço sem rival, a começar nos €19.600, com a versão mais equipada a custar mais €1600. Está também disponível a versão comercial, por €20.510.

Neste artigo vou focar-me apenas nos consumos que fizemos e mais alguns detalhes de utilização que não foram possíveis de aferir em anteriores contactos. Realço, no entanto, que na apresentação utilizámos exemplares de pré-série e que é notória a qualidade superior do acabamento e montagem nas unidades de comercialização. Tal já tinha sido notório quando, nos Global Moby Awards, tive a oportunidade de fazer alguns quilómetros com precisamente este exemplar, que já conta com 7000 km.

É importante sublinhar que o Dacia Spring é um produto barato, tão simples quanto possível (mas com um nível de equipamento que oferece todos os dispositivos e comodidades essenciais, como sistema de navegação, Bluetooth, carregamento por USB, câmara de estacionamento traseiro, bem como diversos sistemas de segurança). Tirando as aplicações a cor de laranja no exterior, não há floreados desnecessários, nem fantasia. O espaço interior é bom à frente e apensa razoável atrás. O tamanho da mala é surpreendente – 290 litros! O ecrã tátil nesta unidade era responsivo, fiável e… direto. Há uma robustez intrínseca na filosofia dos Dacia que inspira confiança. É tudo para usar e tudo funciona. Um minimalismo que cada vez parece fazer mais sentido para muitos.

Baixo peso e potência reduzida

Passa muito por aqui a eficiência energética do Spring. Com menos de uma tonelada de peso, os 45 cavalos de potência do motor acoplado às rodas dianteiras, muito ajudado pelos 125 Nm de binário instantâneo, chega e sobra para a utilização pretendida. A bateria, com aproximadamente 27 kWh tem o tamanho certo para este modelo, conferindo-lhe um alcance máximo de 230 km em WLTP, à média de 13,9 kWh. O Dacia Spring tem apenas dois modos de condução: o Normal, com potência máxima e velocidade máxima disponíveis (45 cv e 125 km/h) e Eco (33 cv e 90 km/h). Não há modos adicionais de recuperação de energia. Volante, dois pedais, comando rotativo de marcha com três opções (neutro, para a frente e para trás) e o botão para seleccionar entre Normal e Eco.

A condução do Spring é, também ela, muito simples. Vamos aos consumos.

Modo Normal, sem Ar Condicionado

Os primeiros 100 quilómetros foram percorridos num percurso misto, com estrada nacional, autoestrada e circuito urbano, à média de 55 km/h. Cumprindo os limites de velocidade em cada área e a autoestrada entre 100 a 110 km/h. O resultado foi uma média de 10,1 kWh/100 km.

Modo Normal, com Ar Condicionado ligado

Neste modo, acabei por fazer 240 quilómetros, divididos em duas partes. O primeiro, com um percurso semelhante e média idêntica resultou num consumo de 12 kWh/100 km. Em vários momentos, a temperatura exterior era superior a 30ºC, obrigado o ar condicionado a trabalhar bastante. Numa segunda parte, o percurso incluiu duas viagens de 50 quilómetros, com uma importante componente de auto-estrada, o que resultou numa média horária superior deste segmento (60 km/h) e um consumo médio de 12,5 kWh. O Ar Condicionado tem um peso de aproximadamente 2 kWh/100 km no consumo. No total destes 240 quilómetros a média final ficou nos 12,3 km/h.

Modo Eco, sem Ar Condicionado

Com a potência e a velocidade máxima limitadas, apenas a circulação em autoestrada sofreu uma alteração significativa: cerca de 80 km/h em cruzeiro, face aos 100/110 km/h das experiências anteriores. Para referência, num percurso de cinco quilómetros, a diferença entre circular a 100 ou a 80 km/h é de 45 segundos, em 10 quilómetros, são 90 segundos.

Nos primeiros 100 quilómetros o consumo médio estava nos 8,3 kWh, mantendo-se nesse valor até aos 185 quilómetros, que assinalaram o final do nosso ensaio. A média horária foi de 40,4 km/h, cerca de 10 km/h acima do padrão de um ensaio em ambiente urbano, o que deixa antever a possibilidade de conseguir consumos mais baixos circulando apenas na cidade.

Ao todo, fiz 526 quilómetros em ciclo combinado, com um consumo médio total de 10,2 kWh/100 km, a uma média de 50,8 km/h. Este consumo energético permite ao Dacia Spring ser considerado um veículo de €1 por cada 100 km (carregamento doméstico, tarifa bi-horária, em horário de vazio).

Detalhe técnico final

De notar que, após os 185 km do último teste, o computador de bordo indicava 52% de carga de bateria restante e um alcance estimado de 155 km, o que, a confirmar-se, permitiria cumprir 340 km com uma carga de bateria. Talvez sim, mas existe a real possibilidade de que a eficiência decresça significativamente à medida que a bateria vai ficando com menos energia.

Segundo o computador de bordo, 185 km com um consumo de 8,3 kWh equivale a 15,355 kWh gastos. Se tal corresponde a 48% da capacidade da bateria, então a capacidade útil da bateria teria que ser bastante superior à anunciada (cerca de 31 kWh). Isso em princípio confirma a não linearidade do consumo de energia à medida que a bateria vai libertando a sua carga. É verdade que, quando a bateria tinha até 80%, o consumo médio indicado era de 8,1 kWh.

Como tal, é difícil admitir a possibilidade de, mesmo com um consumo de 8,3 kWh/100 km conseguir um alcance significativamente superior aos 300 km numa utilização mista, como aquela que fiz. Mas os 305 km anunciados em circuito urbano, isso está certamente garantido.

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