Um novo relatório publicado pela Partnership for Policy Integrity (PFPI), divulgado pela associação Zero, mostra que a União Europeia, incluindo Portugal, encontra-se em risco de falhar os objetivos climáticos, pelo facto de estar a perder os seus sumidouros de carbono florestal a um ritmo alarmante e em virtude do aumento do corte de florestas para produção de energia de forma a atingir as metas de energias renováveis.

Com base em dados governamentais sobre a utilização de biomassa e o estado atual do sumidouro de carbono nos Estados-Membros da UE, contata-se que a queima da floresta, um importante aliado no sequestro de carbono, revela como a política de biomassa florestal da UE está a minar o clima, o restauro da natureza e os objetivos de qualidade do ar.

Segundo o documento, a maior parte da biomassa considerada como energia renovável é madeira em grande parte retirada diretamente das florestas. “A queima de biomassa sólida para aquecimento e eletricidade representou 40% da energia renovável da UE em 2020, mas a energia útil produzida foi inferior”, indica a associação Zero.

Os atuais níveis de exploração da madeira estão a degradar a capacidade sumidouro da UE.

“As políticas da UE que incentivam a energia a partir da biomassa como ‘carbono zero’ e ‘renovável’ conduziram a um aumento acentuado da sua utilização. O consumo de energia a partir de biomassa mais do que duplicou em toda a UE desde 1990, tendo a maior parte deste aumento ocorrido desde 2002, após a UE ter aprovado a sua primeira Diretiva Europeia incluindo a biomassa como energia renovável”, denunciou a Zero.

Capacidade sumidouro de carbono em risco

Os ecologistas referem que os atuais níveis de exploração da madeira estão a degradar a capacidade sumidouro da UE: “A UE perdeu cerca de 25% da capacidade de sequestro anual de carbono na área terrestre entre 2002 e 2020. O aumento do corte de árvores para queima é responsável por grande parte desta perda, uma vez que a produção de produtos e derivados de madeira tem permanecido praticamente constante desde 1990”, diz a Zero.

A UE perdeu 25% da capacidade de sequestro de carbono entre 2002 e 2020

De acordo com este relatório, a maioria dos Estados-Membros tem sofrido declínios acentuados nas suas florestas e sumidouros de carbono terrestres desde 2002. Estes incluem a Áustria, Bélgica, Bulgária, Croácia, República Checa, Dinamarca, Estónia, Finlândia, França, Alemanha, Irlanda, Letónia, Lituânia, Holanda, Portugal e Eslovénia.

“Alguns Estados-Membros (particularmente a Bélgica, Dinamarca, Itália e Holanda) importam pellets de madeira de outros países onde a exploração florestal é prejudicial, e muitas vezes ilegal”, afirmam ainda os ecologistas.

“Com as atuais taxas de declínio, a maioria dos estados não atingirá as suas metas para 2030, colocando as metas climáticas e o objetivo de emissões de carbono ‘zero’ fora de alcance. Para alcançar a estabilidade climática, a UE estabeleceu metas para o aumento do armazenamento de carbono nas florestas e outras áreas. A queima de biomassa florestal aumenta as emissões de carbono, enquanto que o aumento do corte de áreas florestais está a degradar a capacidade das florestas para absorver e armazenar carbono que é adicionalmente emitido”, explica a Zero.

Outro ponto: a queima de biomassa irá colocar em risco a qualidade do ar. “Enquanto a UE se prepara para rever a Diretiva da Qualidade do Ar, uma avaliação de impacto da Comissão concluiu que o cumprimento das normas da Organização Mundial de Saúde salvaria centenas de milhares de vidas por ano e produziria benefícios líquidos surpreendentemente grandes de 38 a 123 mil milhões de euros anuais para a saúde e o ambiente. No entanto, o estudo é claro que tais benefícios não ocorrerão sem uma redução significativa da queima de biomassa”.

A conclusão desta investigação é que muitos Estados-Membros, e a UE como um todo, não conseguirão cumprir os seus objetivos em matéria de clima, natureza e qualidade do ar, a menos que os líderes europeus reformem as políticas de energias renováveis que estão a conduzir à degradação das florestas.

Artigo anteriorCOP27: Portugal propõe-se antecipar de 2050 para 2045 neutralidade carbónica
Próximo artigoAcademia Ponto Verde Mini ensina reciclagem a crianças do jardim-de-infância

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of