Frederico Almada
Frederico Almada
Investigador do MARE - Centro de Ciências do MARE e do Ambiente, ISPA e do Laboratório Associado ARNET

Esta campanha oceanografia representou um ponto de partida para uma avaliação inicial das equipas, muitas delas a trabalhar juntas pela primeira vez. Foram validados os métodos de trabalho nesta região, muitas vezes adversa aos trabalhos no mar, e iniciaram-se os contactos entre cientistas e pescadores. (...) Apesar de toda a tecnologia e de podermos delinear tarefas remotamente, continuamos a ser pessoas, e estes contactos progressivos, olhos-nos-olhos, continuam a ser importantes para sustentar uma relação de confiança a longo prazo entre todos os intervenientes. E é de um processo a longo-prazo que a conservação do Oceano precisa.

Uma campanha oceanográfica a olhar para o futuro da conservação marinha

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O objetivo “30×30” da ONU prevê proteger 30% dos habitats do nosso planeta até 2030. É um objetivo ambicioso do ponto de vista prático, especialmente no que diz respeito ao Oceano, uma vez que atualmente não atingimos sequer 3% de áreas (efetivamente) protegidas a nível global.

Assim, nos próximos oito anos será fundamental seguir algumas linhas sustentadas pelo bom senso: i) é fundamental decidir estrategicamente o que se protege e onde se protege;

ii) é necessário proteger de forma eficaz envolvendo entidades e populações locais;

iii) tem que se assumir o desafio de pensar na gestão de uma rede de áreas protegidas e não apenas numa área específica de forma isolada;

iv) e é crucial apostar fortemente na educação ambiental e na comunicação de ciência. Falhar numa destas vertentes irá no mínimo enfraquecer os alicerces que sustentam o objetivo original.

Uma missão a olhar para o futuro

Foi neste enquadramento que um grupo de cientistas, pescadores, especialistas em imagem e responsáveis do poder local se juntaram numa campanha que decorreu de 1 a 12 de outubro de 2022 a bordo do navio Santa Maria Manuela, da Fundação Oceano Azul.

O desafio foi lançado pelas autarquias de Cascais, Sintra e Mafra e foi assumido por cerca de uma dezena de Universidades que, em cerca de dois meses, prepararam a componente científica desta campanha.

Este antigo lugre bacalhoeiro foi o “navio almirante” de onde saiam todas as manhãs diversas embarcações para explorar as riquezas e os segredos que esta zona agreste da costa portuguesa ainda esconde da maioria dos portugueses. Foram embarcações de pesca com aparelhos iscados e equipados com câmaras, um veículo submarino operado remotamente, semirrígidos com mergulhadores e equipas em terra a prospetar a faixa entremarés.

Os trabalhos decorreram entre a altitude alcançada pelos binóculos dos observadores de aves marinhas, que lhes permitiam identificar os seus objetos de estudo, e mais de 100 metros de profundidade no mar, zonas que já não são iluminadas pela luz solar.

Objetivo principal da campanha foi avaliar em larga escala, e de forma continuada, os valores naturais presentes nestes 60 km da linha de costa de Portugal Continental.

Um ponto de partida

A campanha representou um ponto de partida para uma avaliação inicial das equipas, muitas delas a trabalhar juntas pela primeira vez. Foram validados os métodos de trabalho nesta região, muitas vezes adversa aos trabalhos no mar, e iniciaram-se os contactos entre cientistas e pescadores.

Criaram-se laços com as escolas locais e aprofundaram-se objetivos com os responsáveis das autarquias referidas acima. Apesar de toda a tecnologia e de podermos delinear tarefas remotamente, continuamos a ser pessoas, e estes contactos progressivos, olhos-nos-olhos, continuam a ser importantes para sustentar uma relação de confiança a longo prazo entre todos os intervenientes. E é de um processo a longo-prazo que a conservação do Oceano precisa.

Porque todos vão ser importantes para conservar os valores naturais que vierem a ser descritos nesta região. E aprofundar este conhecimento local vai muito além da biodiversidade, embora esteja intimamente ligado com ela.

Inclui a topografia submarina e a distribuição de habitats (para podermos identificar zonas de maior interesse biológico com, por exemplo, canários do mar, lírios e, eventualmente, os seus predadores), perfis das plataformas costeiras em imagem de alta definição (para podermos seguir a variação temporal de organismos estruturantes e construtores de habitat, como é o caso de muitas algas e da barroeira), conhecer a dinâmica regional de transporte de sedimentos (para identificarmos comunidades costeiras estáveis e efémeras que são assoreadas sazonalmente), definir os perfis de temperatura costeira atuais (para avaliarmos as pressões a que organismos como mexilhões ou perceves estão ou vão estar sujeitos no futuro).

Estamos assim a falar de uma abordagem que nos remete para as primeiras linhas deste texto. Definir objetivos que não são apenas locais, nem têm apenas a ver com o património natural que é fundamental preservar.

Informar e receber informação dos intervenientes locais e trazê-los para o centro deste processo desde o seu início é fundamental. Mostrar o que ainda existe que justifica ser conservado ou recuperado e tomar decisões em relação ao que serve as populações locais. Porque têm que ser elas a definir o que se vai conservar e têm que ser elas o primeiro garante da manutenção a longo-prazo das decisões que se vierem a tomar num futuro que se deseja próximo.

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