João Reis
João Reis
General Manager da Whoosh Portugal

A preocupação com este meio de transporte tem, atualmente, grandes similitudes com as críticas que se verificaram aquando do surgimento dos veículos automóveis. Mas, e se as primeiras impressões não foram as mais positivas, a adesão popular aos veículos de quatro rodas no início do século XX exigiu uma alteração de paradigma. As cidades e autoridades municipais, viram-se obrigadas a adaptar-se, ou seja, a criar condições para um adequado estacionamento e melhores vias de circulação.

Trotinetas são sinónimo de sustentabilidade urbana

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É claro e transversal, numa perspetiva social, mas também no discurso político mais institucional, de que o elétrico é fundamental para a descarbonização das cidades. No entanto, verifica-se, igualmente, alguma, para não dizer muita, apreensão para com as trotinetas elétricas. Importa desconstruir uma narrativa que não deve colocar em causa a estratégia de micromobilidade que, e bem, as autoridades municipais encontram-se a implementar, com as necessárias adaptações que um conceito criado de raiz sempre justifica.

Este “pequeno” veículo de duas rodas, trotinetas ou e-scooters, surgiu exatamente como uma alternativa aos veículos de quatro rodas, como sabemos, altamente poluentes para o nosso meio ambiente. Contudo, o que se verifica é que várias entidades estão “preocupadas”, pelos mais diversos motivos, com o seu uso. Mas não faz sentido justificar esse foco de tensão no número de acidentes com scooters ou na desordem que se verifica nas grandes cidades, em especial, em Lisboa. 

Dados atualizados, de acordo com o registado pelos operadores, apontam para que, e desde o lançamento das trotinetas em 2018, os índices de acidentes sejam equivalentes a 0,0001% do total de viagens realizadas. O argumento da desordem nas ruas também não pode ser a razão da sua “dor de cabeça”. É verdade que há um caminho a seguir, mas os operadores já estão a fazer o seu papel, desde logo, ao criarem equipas para rebalance muito mais regulares, para além de inovarem tecnologicamente com o objetivo de serem criadas soluções que evitem, por exemplo, que se circule nos passeios, que se estacione em zonas proibidas, ou até que duas pessoas partilhem a mesma trotineta.

Alteração de paradigma: período de adaptação

A preocupação com este meio de transporte tem, atualmente, grandes similitudes com as críticas que se verificaram aquando do surgimento dos veículos automóveis. Mas, e se as primeiras impressões não foram as mais positivas, a adesão popular aos veículos de quatro rodas no início do século XX exigiu uma alteração de paradigma. As cidades e autoridades municipais, viram-se obrigadas a adaptar-se, ou seja, a criar condições para um adequado estacionamento e melhores vias de circulação. 

As ilações que se devem retirar é que tudo é um processo, que nas palavras de Fernando Pessoa, mas para outro produto, “primeiro estranha-se e depois entranha-se”. Ou seja, em vez de se “ostracizarem” as trotinetas, devem ser criadas as condições seguras para a sua devida utilização, através da criação de mais ciclovias (embora, neste caso, Portugal ainda está muito atrasado – em 2019, quando a Estratégia Nacional para a Mobilidade Ativa Ciclável 2030 (ENMAC) foi aprovada em Conselho de Ministros, o Governo contabilizava 2.062 quilómetros de ciclovias existentes.

No entanto, e de acordo com os dados da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta (FPCUB), o valor difere – fica-se pelos 750 quilómetros –, o que implica cerca de 4.250 quilómetros por construir. O objetivo governamental é chegar a 2030 com 10.000 quilómetros de ciclovias construídas em todo o território nacional) e soluções de estacionamento nas cidades.

Chegamos assim a um ponto importante. Se as trotinetas devem ser consideradas um meio de transporte de futuro, e dessa forma devidamente enquadradas na estratégia de mobilidade de Lisboa, então, o novo regulamento (que está a ser elaborado) deve promover essa mesma parceria. Mas, para o que mesmo tenha real impacto no futuro sustentável da cidade, é fundamental que não se cinja a dar resposta apenas a questões mais “populistas”, que no limite até podem criar condições para desencorajar o desenvolvimento deste meio de transporte na cidade. 

Neste momento, que não haja dúvidas, as empresas de trotinetas inovaram em larga escala – em pouco mais de 4 anos (dos quais, 2 em pandemia) – em modelos de segurança e soluções que visam mitigar a desordem, (comparativamente com os mais de 100 anos da indústria automóvel) pelo que Lisboa deve aproveitar esse know how e vontade dos operadores de quererem cooperar entre si e de serem parceiros da cidade, com o objetivo de alcançar os objetivos ambientais de 2030 e 2050.

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