João Costa
João Costa
Country manager da Expense Reduction Analysts

Muitas empresas começam, também, a assumir compromissos de sustentabilidade nas suas declarações de missão e planos estratégicos, mas quando se trata de atingir esses objetivos, acabam por tropeçar nas implicações financeiras. É certo que associamos uma postura mais responsável a preços mais elevados, mas será que não existem soluções para conciliar qualidade, acessibilidade, sustentabilidade e rentabilidade? A própria introdução da diretiva de relatórios de sustentabilidade empresarial (CSRD), em junho deste ano, pelo Parlamento Europeu tem como objetivo proporcionar, acima de tudo, transparência e responsabilização por parte das organizações.

A próxima grande “oportunidade verde”

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Muita tinta já correu sobre o tema da sustentabilidade e já muito se dissecou a importância de as empresas olharem para o futuro e implementarem uma estratégia que salvaguarde os interesses dos negócios, a par dos do planeta. Vivemos numa sociedade que precisa de se repensar como um todo e é imperativo que reformulemos, profunda e criteriosamente, a forma como utilizamos os recursos. O tema do aquecimento global, por exemplo, deixou de ser “apenas” sobre o degelo e a subida do nível das águas, ocupando agora o topo das preocupações dos países mais desenvolvidos, pela urgência que exige.

É maioritariamente assente que uma das formas de reduzir as emissões de CO2 seria atacar o “ponto fraco” dos players económicos: a carteira. Taxar as emissões seria, a curto prazo, uma das melhores alternativas, mas é a jusante daqui que as opiniões começam a divergir. Por um lado, as nações mais industrializadas temem que, ao moderar a sua indústria para baixar as emissões, os países em desenvolvimento aproveitem para aumentar a sua produção e, assim, ganhar poder estratégico. Por outro lado, os países menos desenvolvidos, que emitem muito menos toneladas de CO2 per capita, consideram injusto ter de baixar as emissões na mesma quantidade que países que emitem quase 20 vezes mais.

De acordo com o Global Carbon Incentive (GCI), uma das soluções passa por definir a média global de emissões, que, de momento, se encontra nas cinco toneladas anuais per capita. Cada país que emita mais do que essa média contribuiria anualmente para um fundo de incentivo global, sendo o montante calculado através da multiplicação do excesso de emissões per capita pela população e pelo GCI. Por oposição, os países que emitirem abaixo dessas cinco toneladas per capita, receberiam a parte proporcional dos valores pagos pelos países incumpridores. Desta forma, os países desenvolvidos vão querer pagar o menos possível, e os países menos desenvolvidos podem investir o dinheiro recebido em novas tecnologias mais amigas do ambiente, e modernizar a indústria para aumentar a sua competitividade.

Do lado das empresas devem ser criados esforços para a execução de uma estratégia que resulte em menos danos para o ambiente, sem que isso signifique, necessariamente, o sacrifício de margens. Os próprios consumidores procuram ter uma postura social e ambiental cada vez mais responsável, e acabam por incentivar a mesma atitude por parte das organizações. Há, por isso, empresas e líderes que consideram esta a próxima grande oportunidade visionária de crescimento.

Transparência e responsabilização são essenciais

Muitas empresas começam, também, a assumir compromissos de sustentabilidade nas suas declarações de missão e planos estratégicos, mas quando se trata de atingir esses objetivos, acabam por tropeçar nas implicações financeiras. É certo que associamos uma postura mais responsável a preços mais elevados, mas será que não existem soluções para conciliar qualidade, acessibilidade, sustentabilidade e rentabilidade? A própria introdução da diretiva de relatórios de sustentabilidade empresarial (CSRD), em junho deste ano, pelo Parlamento Europeu tem como objetivo proporcionar, acima de tudo, transparência e responsabilização por parte das organizações.

A transição energética é, por isso, uma onda que as empresas devem surfar, e que lhes permitirá otimizar custos, nomeadamente a nível da mobilidade elétrica. Esta última pode, sem dúvida, ser um dos caminhos para a consolidação desta estratégia, devido às suas inegáveis vantagens, mas será que estamos a ter em conta os recursos ou os métodos de extração utilizados na sua produção?

Os veículos elétricos tornaram o cobalto num dos recursos mais valiosos do planeta, tendo o preço por tonelada disparado de 26 mil dólares para 90 mil dólares entre 2016 e 2018, altura em que a União Europeia e os Estados Unidos da América rotularam o metal como matéria-prima essencial. Entre outras consequências, isto colocou a República Popular do Congo em cheque, por ser um país conhecido pela sua extração e, muitas vezes, associado à exploração infantil. A verdade é que 20% do cobalto extraído no país provém de mineração ilegal.

A acrescer a isto, a exploração de silício, um elemento químico fundamental para a construção das células fotovoltaicas dos painéis solares, e cujas vantagens ambientais são já conhecidas, liberta compostos de enxofre e de cloro nocivos, aos quais acrescem as emissões do processo de extração e o facto de ser responsável pela poluição das reservas freáticas.

É certo que não existem soluções perfeitas, e a sociedade em que vivemos precisa de se repensar enquanto comunidade em torno do termo “sustentabilidade”. Nesta perspetiva, é imperativo que reformulemos a forma como utilizamos os recursos. Para isso, temos de estar prontos para mudar, de forma consciente, os nossos hábitos de consumo individuais e organizacionais, reduzindo a necessidade de exploração de recursos.

Será que estamos?

Foto de destaque por Scott Webb

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