Ana Rita Gomes
Ana Rita Gomes
Analista de Políticas energéticas na Apetro, Membro dos Future Energy Leaders Portugal e Embaixadora Portuguesa do Pacto Europeu para o Clima

A par da mobilidade elétrica e do hidrogénio, será necessária a utilização dos combustíveis de baixo ou nulo teor de carbono, produzidos a partir de matérias-primas alternativas, nomeadamente biomassa sustentável, resíduos, bem como a partir de eletricidade proveniente de fontes renováveis e CO2 capturado ou extraído da atmosfera para a produção de combustíveis sintéticos derivados do hidrogénio.

Descarbonização da mobilidade: ambição vs realidade

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Vivemos tempos desafiantes. Sendo indiscutível que as alterações climáticas são um dos maiores desafios que a humanidade enfrenta, é necessário agir imediatamente, apostando numa mudança de paradigma que nem sempre está alinhada com os contextos globais para o compromisso necessário.

Num momento em que se dava início à recuperação da crise pandémica, eis que surge a guerra na Ucrânia. A Europa não tarda a aplicar sanções à Rússia e os preços da energia disparam, não só de produtos petrolíferos e gás natural, mas também de eletricidade. Toda a cadeia de valor dos produtos que consumimos diariamente é impactada e é mais importante do que nunca ter em conta os pilares do trilema energético – segurança de abastecimento, equidade energética e sustentabilidade ambiental.

O “REPowerEU” pretende acelerar a transição energética, minimizando a dependência energética e materializando o compromisso de uma Europa neutra climaticamente até 2050. As suas principais linhas orientadoras visam aumentar a resiliência do sistema energético europeu, promovendo a poupança energética, a produção de energia de origem renovável e a diversificação das fontes de abastecimento.

É importante salientar que, nos momentos excecionais que vivemos, promover a poupança e eficiência energética são duas das medidas prioritárias para fazer face ao aumento dos preços, protegendo os consumidores mais vulneráveis, como famílias, as pequenas e as médias empresas. A energia mais sustentável é a que não consumimos, como tal, é necessário promover um consumo consciente, reaproveitar e maximizar a utilização dos produtos.

Na sua estratégia para combate às alterações climáticas, a mobilidade sustentável é um dos principais eixos de atuação da União Europeia. Neste setor, que representa cerca de 25% das emissões de GEE da EU, mais de 70% das emissões correspondem ao transporte rodoviário, sendo o restante peso repartido igualmente pelo transporte marítimo e aéreo.

Mas para as reduzir as emissões num setor com grande impacto na economia e sociedade, a estratégia adotada deve ponderar todas as soluções viáveis para a sua descarbonização, tanto a nível dos modos de transporte, como dos vetores energéticos utilizados, promovendo a economia circular das matérias-primas e dos seus ativos.

A estratégia de inovação e desenvolvimento tecnológico para a descarbonização privilegia a eletrificação proveniente de fontes de energia renováveis. No entanto, existem desafios nessa visão, seja pelos setores a que a eletrificação ainda não consegue chegar, seja pela dependência de recursos minerais estratégicos, cuja disponibilidade é fortemente condicionada pela geopolítica mundial.

A par da mobilidade elétrica e do hidrogénio, será necessária a utilização dos combustíveis de baixo ou nulo teor de carbono, produzidos a partir de matérias-primas alternativas, nomeadamente biomassa sustentável, resíduos, bem como a partir de eletricidade proveniente de fontes renováveis e CO2 capturado ou extraído da atmosfera para a produção de combustíveis sintéticos derivados do hidrogénio.

Pela sua facilidade de utilização nos ativos atuais, de distribuição e de armazenagem, e pelo seu teor energético, os combustíveis de baixo carbono são uma mais-valia, principalmente em transportes de longa distância. A promoção da economia circular passa não só por utilizar ativos pré-existentes, evitando o desperdício de recursos, como por utilizar também matérias-primas de origem residual que, neste caso, darão origem a novos vetores energéticos.

No caso dos veículos rodoviários, o mais recente estudo da ACAP indica que, em 2021, a idade média da frota portuguesa de veículos era superior em toda as categorias face à média europeia, com 63% da frota de veículos ligeiros acima dos 10 anos e 25% com mais de 20 anos. No caso do transporte de mercadorias, ligeiros e pesados, esta situação agrava-se, sendo a idade média de 14,9 e 14,7 anos, respetivamente. Adicionalmente, segundo a Valorcar, em 2020, a idade média de veículos em fim de vida era de 22,6 anos, refletindo o envelhecimento do parque automóvel nacional.

Considerando estas métricas, e ainda que o fim da venda de veículos novos com motores de combustão interna está agendado para 2035, é expectável que muitos dos veículos adquiridos até essa data ainda estejam em circulação em 2050. Para minimizar o seu impacto na qualidade do ar, promovendo a inovação em termos de motores de combustão interna avançados para veículos ligeiros e pesados, a mais recente proposta da EURO 7 introduz limites mais restritivos, com uma maior abrangência de poluentes assim como condições de testagem mais alargadas.

No caminho para a mobilidade sustentável é indispensável, não só o incentivo a políticas de combate às alterações climáticas, bem como o investimento em inovação na procura por de soluções custo-eficientes e acessíveis a todos. Torna-se assim fundamental considerar na equação da mobilidade os diferentes constrangimentos ambientais, mas também o enquadramento social e financeiro dos consumidores, de forma que ninguém fique para trás no processo de transição energética.

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