A E-Redes está a desenvolver um projeto que pode revolucionar o modo como os consumidores de eletricidade utilizam e se relacionam com a energia.
O FIRMe é esse projeto-piloto que visa construir um mercado local de flexibilidade das redes de distribuição, em que os consumidores – sejam eles indústrias, empresas ou conjuntos de habitações – consomem menos eletricidade num período de tempo definido e, em contrapartida, recebem um valor pela disponibilidade que apresentam. Ou seja, os consumidores que se integram no sistema elétrico como pagadores poderão ser pagos pelo serviço prestado, sem que tenham necessidade de ter painéis fotovoltaicos.
O objetivo da E-Redes é lançar, neste verão, o primeiro leilão para encontrar os consumidores recetivos.
Na plataforma digital da empresa britânica Piclo, com a qual a E-Redes tem uma parceria, os consumidores podem registar-se.

Nesta fase, encontram-se definidas oito zonas de Portugal onde há necessidades mais urgentes.

Resolver constrangimentos
Um dos mentores deste projeto é Pedro Godinho Matos que, ao semanário Expresso, explicou que um dos objetivos deste mercado é evitar ou resolver de forma mais rápida qualquer constrangimento que possa surgir na rede, por haver um pedido de ligação de um novo cliente cujo consumo venha sobrecarregar a infraestrutura ou porque há um evento climático que provoca uma falha elétrica, ou ainda porque, com a descarbonização, haverá mais veículos elétricos para carregar e mais casas, empresas e indústrias a usar eletricidade.
Até agora, para resolver constrangimentos, a E-Redes recorria à solução tradicional de construir mais redes ou substituir as antigas por redes inteligentes, obras que demoram a fazer e carecem da aprovação do regulador e do Governo.
Com este mercado de flexibilidade local, “conseguimos solucionar constrangimentos de forma mais rápida”, acrescenta Rui Bento, da E-Redes.
Do lado da ERSE, é preciso alterar o quadro regulatório de forma a permitir a criação deste mercado e a realização dos leilões, e um dos primeiros passos foi dado com a colocação em consulta pública, até 15 de maio, da Revisão Regulamentar do Setor Elétrico.
Do lado da E-Redes, um dos trabalhos a fazer é definir a forma e os valores a pagar aos consumidores. Porque “a maior dificuldade que temos visto é arranjar consumidores que estejam dispostos a ceder a disponibilidade de consumo”, diz John Bayard, da Piclo, ao Expresso.
De acordo com Pedro Godinho Matos, o valor a pagar “vai depender do produto de flexibilidade que o consumidor irá fornecer”, porque está previsto haver “esquemas de remuneração diferentes”, ou seja, pode ser um valor fixo mensal, variável ou uma combinação de ambos, “o que provavelmente será a maioria dos casos”.
Como funciona
Suponhamos que a E-Redes precisa de reduzir um total de 300 kW de consumo de eletricidade entre 1 de abril e 31 de maio de 2024, numa determinado zona, com essa redução a ser apenas feita nos dias úteis, durante um máximo de 45 minutos e entre a meia-noite e as 8h00.
“Os interessados inscrevem-se na plataforma, seja um consumidor único ou um grupo de consumidores, isto porque vai haver agregadores para juntar clientes, principalmente residenciais, porque têm menor consumo individualmente. E, quando for o leilão, fazem ofertas para o período em que podem reduzir o consumo, sendo que, neste caso, em vez de ganhar a oferta mais alta, ganha a mais baixa. Se fizer match, um pouco à semelhança de uma aplicação de encontros amorosos, faz um contrato com a E-Redes para o período já definido e pelo valor oferecido no leilão”, aponta o semanário Expresso.
Por exemplo, “se for um contrato variável e forem reduzidos 300 kWh, o benefício a receber será o valor oferecido no leilão multiplicado pela quantidade de energia, ou seja, se tiver feito uma oferta em que está disposto a receber €100 por megawatt hora e for ativado para os 300 kWh, receberá €30 de cada vez que reduzir o consumo, que podem ser algumas horas por ano ou por vários anos”, adianta ao Expresso Pedro Godinho Matos.
Os pedidos de redução de consumo serão feitos pela E-Redes com antecedência, mas, num futuro próximo, será tudo digital, através de aplicações que emitem aviso e reduzem o consumo, sem o cliente ter de fazer nada, remata Pedro Godinho Matos.