A mais recente Welectric Talk abordou a transição energética nos transportes, tendo em mente os próximos desafios que se colocam ao país no tocante à expansão da mobilidade elétrica. Nesta conversa, João Filipe Nunes, responsável da Direção de Gestão de Clientes da E-Redes, explica de que forma é que o operador da rede de distribuição de energia elétrica em Portugal Continental está a lidar com a crescente necessidade de haver pontos de carregamento para viaturas elétricas e esclarece uma das dúvidas que surge mais frequentemente: se todos os veículos em Portugal fossem elétricos, a rede elétrica aguentaria? Tem a palavra João Filipe Nunes.

João Filipe Nunes

Welectric: Qual é o papel da E-Redes na transição para a mobilidade elétrica?
João Filipe Nunes: Antes de mais, agradecer, em nome da E-Redes o convite que nos foi feito. A E-Redes está completamente comprometida com estes temas da transição energética e temos feito um conjunto de atividades muito grande, seja com a mobilidade elétrica, mas também noutros temas, como autoconsumo (individual e coletivo) e grandes centros electro produtores. Porque no final do dia, se queremos que a mobilidade elétrica seja verde, também é necessário que a energia produzida seja verde.

A E-Redes tem aqui essencialmente dois grandes papéis. Um primeiro diz respeito à ligação da infraestrutura de carregamento à rede de distribuição de energia elétrica e que pode ter várias tipologias. Por exemplo, podemos ter um posto de carregamento público na via pública em que é pedida uma nova ligação e que teremos que garantir essa ligação e essa potência. Mas também podem ser pedidos carregadores, por exemplo, em instalações já existentes, como um centro comercial, em que a instalação já existe, mas é pedido à E-Redes um aumento de potência para satisfazer todos esses carregamentos. Portanto, intervimos nessa componente de ligação. Mas antes de passar à segunda atividade, gostava de dar alguns números.

Em 2021, tivemos cerca de 500 processos relacionados com a mobilidade elétrica e em 2022 duplicámos para 1002. Em 2023 vamos ter cerca de 2000. Para 2024 esperamos algo em torno dos 3000 processos relacionados com a ligação à rede da mobilidade elétrica.

A segunda atividade traduz-se naquilo que é a disponibilização de informação aos agentes de mercado. Ou seja, nós trocamos um conjunto de informação muito grande com a Mobi.e. Em 2022 foram mais de 110 milhões de dados trocados. Qual é a informação a dar aos comerciantes de energia da mobilidade elétrica? Quais os consumos próprios da instalação? Qual é a informação do comercio do setor elétrico, até para efeitos de faturação? Portanto, diria temos estes dois grandes papéis neste tema da mobilidade elétrica.

Um dos mitos da mobilidade elétrica é relativa à capacidade da rede. Se todos os veículos automóveis em Portugal fossem elétricos, algo que para já é impossível e que a acontecer, será num futuro ainda distante, a rede elétrica aguenta?
JFN: Antes de responder diretamente, eu vou dar dois números para nos dar um a dimensão do que é que estamos a falar. A E-Redes, na sua rede de distribuição, distribuiu o ano passado cerca de 45/46 TW/h de energia. Se tivéssemos 6 milhões de veículos elétricos, a pensar mais nos ligeiros, a necessidade de energia ia ser um terço superior. Ou seja, íamos passar dos 45/46 para cerca de 60 TW/h. Ou seja, precisávamos de mais de um terço relativamente àquilo que distribuímos.

“Se tivéssemos 6 milhões de veículos elétricos temos que assegurar cerca de 7,8 GW de potência”

Com este valor também dar lhe um número. E quando nós olhamos para o AFIR – Alternative Fuels Infrastructure Regulation, ele indica cerca de 1,3 kW por cada veículo elétrico puro naquilo que é a rede pública de carregamento. Ora, se nós multiplicarmos isto por 6 milhões, vai dar cerca de 7,8 GW de potência que temos que assegurar. Para dar uma referência: a potência instalada hoje na rede de alta e média tensão da E-Redes é de cerca de 17,2 GW. Com estes dois dados, percebemos uma coisa simples: é que sem redes elétricas não há transição energética e não há todo este fator da mobilidade elétrica.

Para responder diretamente à questão, nós incorporamos nos nossos planos de investimento plurianuais os cenários de crescimento de mobilidade elétrica. Portanto, usamos a informação do RSA da DGEG, emitida anualmente em 2022 e 2023 e estamos a ajustar os nossos planos de investimento àquilo que são os cenários. Neste momento estamos numa fase de revisão, tentando incorporar a evolução do setor nos nossos planos. Desde logo porque muitas das instalações até hoje foram na rede de baixa tensão, essencialmente de baixa tensão especial.

O que vemos hoje, com as potências de carregamento, com os hubs, com o transporte de pesados e até com a própria eletrificação dos portos para a componente marítima, vamos evoluir muito rapidamente para uma grande maior parte de instalações na média tensão e neste caso, dos portos, até estamos a falar de instalações na alta tensão.

São estas novas variáveis que também temos em linha quando fazemos estes planos plurianuais, que depois são validados também pelo nosso regulador.

Queria só dar mais uma nota: o investimento pode ter uma componente mais tradicional, que são as redes que temos de fazer — as linhas, as subestações, os postos de transformação. Mas não podemos descurar o investimento em redes inteligentes.

Temos vindo a fazer aqui um trabalho muito grande e isso tem como principal objetivo dar mais controlo à rede. O que é que isso quer dizer? De uma forma muito simples, conseguimos controlar muito melhor a rede, percebendo tudo o que se passa e até controlar os ativos que possam estar ligados à nossa rede.

“não podemos descurar o investimento em redes inteligentes”

E isso vai ser um game changer muito grande para acelerar toda esta integração. Dou só um caso para terminar, relativamente à componente da flexibilidade. Lançámos um piloto de flexibilidade há muito pouco tempo, com o projeto FIRMe e tivemos bastantes clientes que fizeram uma proposta para poder participar no projeto.

Isto quer dizer que se o operador de rede tiver uma dificuldade na sua rede — vamos imaginar dez, 20, 30, 40 horas durante um ano —  se houver alguém disponível a receber um certo valor para baixar a sua potência, nós conseguimos muito mais facilmente integrar a solução, porque construir rede demora o seu tempo.

Nesta fase, os operadores, ponto de carregamento e infraestrutura ainda não entraram neste projeto de flexibilidade, mas estou em crer que no médio prazo poderão também entrar e eles próprios contribuírem para alavancar muito mais a velocidade com que integramos todos estes ativos na rede.

W: Mas para resumir esta questão da rede, a rede vai aguentar porque vão sendo feitos os preparativos e os investimentos.
JFN: Estão a ser feitos os investimentos, quer no tradicional, quer nas redes inteligentes, de acordo com todos os cenários que temos, para incorporar as necessidades que sejam necessárias para a mobilidade elétrica.

W: Muitas vezes, quando inquirimos os OPC sobre a abertura dos postos, recebemos a resposta de que estão à espera da ligação à rede há vários meses ou que receberam orçamentos avultados também para essas obras. É possível, por parte da E-Redes, acelerar os tempos necessários para a instalação dos postos de carregamento.
JFN: No início de 2022, a UVE informou-nos da dificuldade que os operadores da mobilidade elétrica, sobretudo com uma multiplicidade de pontos, tinham para acompanhar os processos.

Foi aí que percebemos que tínhamos que mudar algumas coisas relativas à mobilidade elétrica. Mas é importante salientar que a ligação à rede é algo que é da responsabilidade da E-Redes, da responsabilidade do promotor, mas também existem outras entidades públicas que têm que fazer licenciamentos e que dar autorizações. Para haver, por exemplo, uma escavação e passar um cabo subterrâneo também é preciso uma autorização policial. Às vezes parece que a E-Redes faz tudo – e faz muito –, mas também há aqui uma série de stakeholders.

E reconhecendo que haviam aqui de facto problemas na ligação, desenvolvemos um conjunto de iniciativas bastante grandes e diria que muitas delas, ou mais de 80% delas em co-criação com os clientes, porque no final do dia, achamos que a solução é uma, mas quando falamos com o cliente, que realmente usa, faz ou instala, é que percebemos quais são as reais necessidades.

Desenvolvemos três tipos de iniciativas. Por um lado, tivemos que simplificar muito a forma como funciona um processo que passa por várias entidades, porque temos a ligação à rede, orçamentos, a execução e a integração no fim com a Mobi.e.

Isso passa por diferentes estruturas dentro da E-Rede. A primeira coisa que fizemos foi montar uma equipa, que nós chamamos Agile, onde passamos a ter um gestor de produto, que coordena as várias áreas. Passamos a ter pessoas a trabalhar em paralelo, coordenadas pelo gestor de produto. Para além de reuniões semanais mais elaboradas, todos os dias há uma reunião de meia hora para perceber se há algum problema.

Também fazemos isto com temas das comunidades e dos grandes centros electro produtores, cada um com o seu gestor distinto e áreas completamente diferentes.

Depois, percebemos que havia falta de informação. A primeira iniciativa foi passarmos a partilhar com todos os operadores de pontos de carregamento (OPC) um dashboard onde estão todos os processos. Os operadores sabem o que é que está nas redes, o que é que está na câmara municipal, o que é que está na Direção Geral ou o que é que está no próprio promotor. E essa visibilidade acelerou muito os processos. Passámos a ter todos uma visão integrada. Nós próprios passámos a ter esta visão de onde é que estão os bottlenecks e como podemos resolver.

“Passámos a partilhar com todos os OPC um dashboard onde estão todos os processos. Essa visibilidade acelerou a resolução das situações”

Outro tema relativo à informação prendeu-se com a necessidade de os operadores querem conhecer a rede elétrica. Porquê? Porque se souberem onde é que estão os postos de transformação e qual é a capacidade já disponível, a ligação é mais célere. Muitas vezes, o que os operadores me diziam era que ligar nesta rua ou três ruas atrás é igual. Se eu perceber que três ruas atrás o processo é mais simples, porque há capacidade na rede e eu consigo fazer isto, então é para aí que eu vou. E nós disponibilizámos em abril, um mapa, que convido todos a usar no portal de Open Data da E-Redes, onde estão os nossos 70.000 postos de transformação.

Em seis meses houve mais de 300.000 cliques nos postos de transformação. E muitos já nos disseram que fazem sempre esse exercício muitas vezes antes de vir pedir qualquer coisa.

E o terceiro ponto, que se calhar foi por onde começou, é a proximidade. As entidades começaram todas a fazer circular muito mais informação, a partilhar muito mais os seus problemas. Nós precisamos de um interlocutor único. Não temos uma visão integrada. Criámos um interlocutor único, quase o one stop shop, onde há um nome, há um e-mail, há um telefone. Começámos com uma pessoa e acabamos por ter uma equipa com, pelo menos, mais duas pessoas para dar essa resposta direta aos operadores. E para além disso, também desenvolvemos muito esta interação com ERSE, com a própria DGEG. Nestas conversas entre todos, percebemos que se fizermos as coisas de outra forma encontramos soluções para alguns desafios ligados à mobilidade elétrica.

“Se o OPC perceber que três ruas atrás o processo [de instalação de um posto] é mais simples, porque há aí capacidade na rede, tudo se torna mais fácil e rápido”

Portanto, em resumo, toda esta componente de simplificação, de informação proativa e desta proximidade fez-nos descer tempos de resposta que tínhamos. Por exemplo, pedidos de condição, demorávamos em média 30 dias. Estamos a demorar 15. A própria integração que era 12 ou 15 dias e estamos abaixo dos quatro dias ou mesmo dos três dias.

Agora pergunta-me: está tudo solucionado? Não. Há sempre casos que são complexos em que, às vezes, a solução técnica obriga a passar junto de uma estrada, é preciso uma autorização, é preciso uma escavação de 800 metros. E que tem que ter polícia todos os dias. Ou seja, há casos que são complexos.

Agora, eu diria que estamos a fazer este caminho em conjunto com todos os stakeholders, fazendo uma série de melhorias. E iremos continuar porque já sabemos que, neste setor, o ritmo é vezes dois e pode manter-se por muitos anos e temos que estar todos preparados para responder mais rápido, se queremos integrar um número cada vez maior de postos.

Este excerto da entrevista foi editado com o objetivo de facilitar a leitura. A Welectric Talk com João Filipe Nunes está disponível no canal de YouTube do Welectric e também em formato Podcast, no Spotify.

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