No cenário desafiador das alterações climáticas globais, a agricultura é das atividades mais afetadas, com a agravante dela depender a alimentação da humanidade e o que os cientistas vêm agora destacar, num apelo dirigido aos responsáveis políticos europeus, é que o avanço contínuo das técnicas genómicas na agricultura oferece uma ferramenta inovadora e eficaz para enfrentar os desafios impostos pelas alterações climáticas.

Centenas de “cidadãos preocupados”, entre os quais 35 laureados com o Prémio Nobel e mais de mil cientistas, solicitaram ao Parlamento Europeu que considere os benefícios da adoção das novas técnicas genómicas nas suas propostas legislativas.

“Enquanto cidadãos preocupados que acreditam no poder da ciência para melhorar as nossas vidas e a nossa relação com o planeta, imploramos que votem a favor das novas técnicas genómicas, alinhando as vossas decisões com os avanços do conhecimento científico”, lê-se na carta aberta.

Os subscritores da iniciativa, coordenada pela organização WePlanet, defendem que se passarem a integrar abordagens genéticas avançadas, os cientistas agrícolas têm a capacidade de desenvolver culturas mais resistentes, adaptáveis e produtivas, desempenhando assim um papel crucial na garantia da segurança alimentar diante das complexidades ambientais que o nosso planeta enfrenta.

“Nestes tempos de crise climática, perda de biodiversidade e insegurança alimentar renovada, uma abordagem científica e baseada em provas é essencial em todos os aspetos”, sublinham os autores que lembram que se trata de uma corrida contra o tempo. Os cientistas subscritores declaram que o “melhoramento convencional de culturas resistentes ao clima (com cruzamento de certas características, seleção subsequente e retrocruzamento para eliminar as características indesejáveis) é demasiado moroso. Demora anos, décadas até. Não dispomos desse tempo numa era de emergência climática”.

“Há também muitas plantas que, devido às suas características genéticas específicas, são muito difíceis de reproduzir por meios convencionais, como as árvores de fruto, as videiras ou as batatas. E acontece que estas culturas requerem a maior parte dos pesticidas nocivos utilizados na União Europeia para proteção contra pragas e doenças”, lê-se no documento.

Os especialistas indicam que as novas técnicas genómicas “podem melhorar drasticamente” a proteção contra doenças e pragas.

“As novas técnicas genómicas ajudam a tornar as plantas cultivadas resistentes às doenças através de edições precisas e direcionadas do seu código genético, tornando assim possíveis os nossos objetivos ambiciosos e vitais de redução dos pesticidas, ao mesmo tempo que protegem os rendimentos dos agricultores”.

Nesta carta aberta é dito que “muitos dos agricultores europeus que trabalham arduamente – incluindo um número crescente de produtores biológicos – são apoiantes entusiásticos das novas técnicas genómicas”.

“O projeto de lei sobre a regulamentação das plantas NTG [Novas Técnicas Genómicas] é, por conseguinte, um passo importante que apoiamos tendo em conta a nossa missão de reforçar a sustentabilidade ambiental na alimentação, agricultura e energia. A utilização responsável das NTG que a legislação poderá desbloquear pode contribuir significativamente para a nossa busca coletiva de um futuro mais resiliente, ambientalmente consciente e com segurança alimentar”, adiantam.

Benefícios económicos também

Os subscritores avançam que estas técnicas “extremamente promissoras para uma agricultura sustentável, uma maior segurança alimentar e soluções médicas inovadoras” também se podem traduzir em “novos empregos e numa maior prosperidade económica”.

Nesta missiva é apontado que um relatório recente “mostrou que a não autorização das NTG poderia custar à economia europeia 300 mil milhões de euros por ano em ´benefícios perdidos` em vários setores. Este é o custo de dizer ´não` ao progresso científico”.

Os cientistas encorajam o Parlamento Europeu a “dialogar com a esmagadora maioria dos agricultores e peritos genuínos e não com os lobistas reativos anti-ciência da bolha de Bruxelas”.

E referem que “os líderes africanos, por exemplo, estão a acompanhar de perto a decisão” do Parlamento Europeu, “tal como os cientistas africanos que têm mandioca, banana, milho e outras culturas de base resistentes às alterações climáticas prontas para serem utilizadas”.

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