O lítio é o “novo petróleo” dada a sua vasta utilização num mundo que acelera a sua transmissão energética e necessita de um crescente número de em baterias, designadamente para smartphones e automóveis elétricos.

Estimativas da Agência Internacional da Energia (AIE) indicam que a procura global de lítio pode aumentar mais de 40 vezes, até 2040, pelo que o controlo de uma parte significativa da cadeia global, seja da matéria-prima seja da sua transformação, se traduz em benefícios económicos e geopolíticos.

Austrália, Chile, China, Argentina, Brasil e EUA são atualmente os maiores produtores de lítio.

Apesar de ter “apenas” entre 7% e 15% dos recursos mundiais de lítio identificados, a China refina cerca de metade do lítio mundial (alguns números apontam até para 60-70%), o que lhe dá uma posição estratégica única do ponto de vista económico, a qual preocupa o mundo ocidental.

Ou seja, a China é a fábrica do mundo de refinação de lítio, ainda que não seja o seu principal fornecedor, dependendo fortemente de importações.

Mesmo com o anúncio esta semana da descoberta na China (em Yajiang, na província central de Sichuan) de um grande depósito de lítio, com reservas de cerca de um milhão de toneladas de lítio, após cinco anos de prospeção e exploração, essa quantidade é uma gota de água para as necessidades mundiais.

É aqui que entra a estratégia do “Império do Meio”: de forma discreta, mas efetiva, as empresas mineiras chinesas e os fabricantes chineses de baterias estão a intensificar esforços para aumentar o seu acesso a depósitos de lítio em diferentes locais do mundo, desde América do Sul e África, numa tentativa de satisfazer a crescente procura global de baterias.

Jorge Heine, professor da Escola Pardee de Estudos Globais da Universidade de Boston e ex-embaixador do Chile na China, diz que cerca de metade das reservas globais de lítio estão localizadas em três países latino-americanos: Argentina, Bolívia e Chile. Enquanto isso, 70% das baterias de veículos elétricos são produzidas na China. “Estes dados dizem-nos que existem potenciais interesses comuns entre a China e a América Latina, que podem lançar as bases para o desenvolvimento de várias formas de joint ventures”.

E é isso que tem vindo a acontecer.

Esta semana, por exemplo, a Bolívia finalizou um grande acordo com o maior produtor de baterias da China, CATL, e a maior mineradora de cobalto, CMOC, a propósito do lítio.

O consórcio, que também inclui a subsidiária de reciclagem da CATL, Brunp, produzirá 25 mil toneladas de carbonato de lítio para baterias até 2024 e 100.000 toneladas até 2028, utilizando o processo de extração direta de lítio, em vez de grandes lagoas de evaporação.

Outro exemplo: no Perú, a empresa estatal chinesa Cosco Shipping está a construir um porto de águas profundas na costa do Pacífico que irá funcionar como uma âncora para o comércio entre o continente sul-americano e a China (China e o Peru estão localizados a mais de 16.000 km de distância).

Chancay será esse terminal portuário, o primeiro controlado por Pequim na América do Sul capaz de receber grandes navios cargueiros diretamente da Ásia.

A “Belt and Road Initiative” (“Iniciativa do Cinto e Rota”) é a nova “rota da seda chinesa”. O lítio é o mais recente motivo para esta “invasão” económica.

A iniciativa “Belt and Road (BRI)” é uma estratégia de desenvolvimento global de infraestruturas adotada pelo governo da China, que possibilita investimentos em cerca de 20 países da América Latina. Criada em 2013, a iniciativa leva os investimentos chineses para 146 países. Entre as economias latino-americanas, incluem-se Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador, Peru, Panamá, Uruguai e Venezuela.

O porto de águas profundas, com abertura prevista para o final deste ano, não surge por acaso: é uma componente chave da iniciativa “Belt and Road” da China, que dura há uma década, e que visa expandir a sua influência económica a nível mundial.

A importância desta infraestrutura portuária é tal que se diz que o presidente chinês, Xi Jinping , inaugurará o porto durante a sua visita antecipada ao Peru para a Cooperação Económica Ásia-Pacífico.

Em África passa-se o mesmo, com grupos empresariais chineses a estarem por detrás da maioria das explorações de lítio. E demonstrando visão, as empresas chinesas investiram no negócio de lítio em África e na América Latina, mesmo quando os preços do lítio estavam baixos.

“Temos de ser justos com os chineses”, afirma Hadley Natus ao Finantial Times, ele que é o presidente do Tantalex, um grupo que explora lítio na República Democrática do Congo. “Eles investiram muito antes de qualquer outra pessoa.”

Daí que todos investimentos feitos pela China na América do Sul e em África sejam um enorme desafio para os Estados Unidos e para a Europa, que trabalham para combater a crescente influência da China na América Latina e em África, ricos na matéria-prima porventura mais preciosa da atualidade, o lítio.

A questão é: será que vão conseguir travar o gigante asiático?

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