A nossa sociedade produz mais de 2 biliões de toneladas de resíduos sólidos num só ano. A maioria deste desperdício acaba em aterros sanitários, que globalmente, é o método de descarte mais comum.

Com o crescimento dos aterros, a sua pegada ecológica é cada vez mais significativa. São responsáveis pela emissão de uma elevada quantidade de metano, sendo este 84 vezes mais potente como um gás de efeito de estufa do que o CO2. Estas emissões de metano e CO2, provenientes de aterros, agravam o aquecimento global.

Estes depósitos de lixo causam também problemas aos municípios: ocupam solos e áreas de valor para o ordenamento do território, e produzem uma elevada quantidade de gases e líquidos nocivos. São também fontes de poluição visual e de odores.

A start-up madeirense Floating Particle desenvolveu uma solução inovadora de gestão de resíduos e produção de energia limpa, aproveitando o elevado potencial energético dos resíduos.

O seu principal produto, a Stella, utiliza tecnologia de gaseificação de ponta para converter lixo precondicionado em hidrogénio, revolucionando os processos atuais de gestão de resíduos e reduzindo o seu impacto ambiental.

A solução foi anunciada para Cascais, município onde será implementado, com o consumo de hidrogénio a ser usado em autocarros. Em declarações ao Welectric, Diogo Soares, diretor técnico da Floating Particles, explica que neste momento está a ser construído o equipamento que será levado para Cascais, o que se prevê que possa acontecer até julho ou agosto.

A Floating Particle recebeu, em meados de 2023, um financiamento por parte da Portugal Ventures, uma das principais entidades de capital de risco em Portugal.

“Ao produzir hidrogénio pela gasificação de resíduos abordamos dois problemas simultaneamente: reduzimos os aterros sanitários e os seus impactos negativos, e produzimos energia limpa”, refere a start-up.

“Na Floating Particle, trabalhamos com plasma pirólise, que consideramos ser o processo de gasificação mais eficaz para a produção de hidrogénio a partir de resíduos. A tecnologia da Floating Particle para a produção de hidrogénio pela gasificação de resíduos, é otimizado para o tipo de resíduos existentes em pequenas comunidades”, apontam.

1) Os resíduos pré-condicionados entram no reator.
2) O reator recebe ar e separa-o em N2 e O2. O N2 é injetado no sistema, dando início ao processo de gasificação.
3) O hidrogénio e outros produtos, como Biochar (biocarvão) e O2 são produzidos.
4) O hidrogénio produzido pode ser usado para gerar eletricidade, ou para consumo direto como em processos termoquímicos, ou abastecimento de energia a transportes.

Fonte: Floating Particle

Para os seus criadores, o sistema é “simples e adaptável”, “acessível e sustentável”, sendo “uma ótima solução para pequenas cidades, localidades e igualmente para países em desenvolvimento”.

Ao colocar em prática a nossa metodologia, um município pode ganhar “uma resposta autossuficiente para a gestão de problemas com resíduos”, sublinha a Floating Particle.

A Stella processa 8 toneladas de resíduos pré-condicionados. Isso é equivalente a mais de três elefantes africanos adultos em peso. A partir desses resíduos, a STELLA produz 800 quilos de hidrogénio ultra-puro.

Ao transformar esses resíduos em algo valioso, estamos a reduzir o desperdício em aterros e seu impacto ambiental, diz a empresa.

O hidrogénio produzido na Stella pode ser utilizado para produzir uma quantidade de 24 MWh de energia em apenas um dia. Isso é energia suficiente para alimentar 67 autocarros, cada um viajando uma distância de 250 km, segundo a empresa.

Benefícios desta tecnologia

Os responsáveis da empresa enumeram os benefícios da utilização desta tecnologia de produção de hidrogénio pela gasificação de resíduos:

  • Necessita apenas de resíduos, ar e uma pequena quantidade de água para entrar no sistema;
  • Todas as substâncias que provêm do processo de queima da gasificação, nomeadamente os alcatrões, são tratadas e convertidas em hidrogénio;
  • O sistema é autossuficiente em termos energéticos;
  • A gasificação dos resíduos produz principalmente biochar (biocarvão) e hidrogénio;
  • O hidrogénio produzido pode ser convertido em eletricidade;
  • É um processo livre de emissões poluentes.

O sistema Stellag-40 possui a capacidade de processar 296kg/h de biomassa e resíduos pré-condicionados. Funciona 24 horas por dia, 350 dias por ano, tendo assim a capacidade de processar anualmente um total de resíduos na ordem das 2486,4 t.

Segundo Diogo Soares, a vida útil da máquina Stella será de 15 anos.

O processo de gasificação da Stella consegue produzir 30.17 kg/h de hidrogénio. O hidrogénio pode ser convertido em eletricidade e utilizado para autoconsumo do sistema. O restante hidrogénio pode ser vendido, gerando receitas e lucros. “Os outros produtos resultantes do processo, nomeadamente biocarvão e O2, são também valiosos no mercado, podendo também ser fontes de rendimento”, refere a start-up.

Ao Welectric, Diogo Soares, responsável da Floating Particle, explica que decorrem já conversas com outras três autarquias, ainda que não tenham, para já, referido quais são. O hidrogénio que vier a ser produzido nestes município poderá ser usado na mobilidade ou como substituto de gás natural.

Outro passo em análise por parte da empresa consiste no escalar da atual capacidade produtiva, no sentido de satisfazer o desejado crescimento do negócio. E aí, os cenários são dois: instalação de uma fábrica de produção das máquinas Stella no Continente; e aumentar as instalações no Funchal. A decisão ainda não foi tomada.

A internacionalização está na mira da Floating Particle e o mercado brasileiro é, neste momento, o prioritário.

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