Prevê-se que, até 2050, 75% da população mundial viverá em áreas urbanas, pelo que o conceito de “cidades inteligentes” captou a imaginação de todos. Mas por que razão três utopias tecnológicas acabaram como “cidades-fantasma digitais” apenas cinco anos após o seu lançamento?

“Uma cidade inteligente bem sucedida é aquela que começa com os cidadãos e termina neles. É sobre eles. Sempre deveria ser”, diz Steffan Black.

A equipa da ZenShield foi analisar por que motivo alguns projetos bilionários com um potencial tão grande acabaram por chegar a um beco sem saída rapidamente. A análise olhou para três casos, um dos casos em Portugal.

Foto: KPF

Songdo, Coreia do Sul

Construída de raiz em 607 hectares de terra recuperada, Songdo parecia destinada a ser um modelo de destaque para as cidades do futuro. A cidade, equipada com tecnologia de ponta, dispunha de sistemas eficientes de eliminação de resíduos, casas inteligentes e salas de aula conectadas a nível global.

As falhas

No entanto, vários anos após o seu lançamento, Songdo continua pouco povoada. As razões atribuídas ao seu fracasso são diversas, tais como:

  • Os elevados custos de vida afastam potenciais residentes.
  • A falta de atrações culturais e sociais torna-a pouco atrativa.
  • Uma abordagem de planeamento “de cima para baixo“, que ignora a necessidade de um crescimento orgânico que ocorre naturalmente nas cidades.
Foto: KPF


“Songdo é um exemplo perfeito de pôr a carroça à frente dos bois”, aponta Steffan Black especialista em tecnologia da ZenShield. “Os modelos de cidades inteligentes devem satisfazer as necessidades reais dos residentes, em vez de simplesmente integrar tecnologia de ponta”.

Masdar, Emirados Árabes Unidos

A cidade de Masdar foi concebida como a primeira cidade do mundo neutra em carbono e sem resíduos. O projeto continua a ser concretizado, mas esta cidade planeada perto de Abu Dhabi continua a ser, em grande parte, uma cidade-fantasma digital, com apenas uma fração da população prometida.

As falhas

As razões, de acordo com a análise da ZenShield, para o projeto não ter suscitado o interesse que os seus promotores idealizaram incluem:

  • Atrasos na construção que provocam um interesse vacilante por parte dos investidores.
  • Os elevados custos de vida e de aluguer comercial dissuadem potenciais residentes e empresas.
  • Falta de praticidade, com características planeadas que parecem mais uma montra de conceitos futuristas do que uma resposta às necessidades reais de habitabilidade.


Steffan Black comenta: “As cidades inteligentes, como a cidade de Masdar, não devem ser simplesmente projetos de feiras de ciências. Devem ser práticas, acessíveis e viáveis tanto para empresas como para residentes”. Steffan Black garante que, se estas cidades não conseguirem adaptar-se às pessoas comuns, correm o risco de se tornarem montras isoladas de tecnologia avançada.

PlanIT Valley, Portugal

Os promotores do PlanIT Valley prometiam, em 2010, construir de raiz uma cidade para 225 mil pessoas que combinava tecnologia avançada e sustentabilidade em Portugal, segundo um conceito: Urban Operating System (UOS). Essa cidade inteligente ia localizar-se em Paredes, ao longo de uma área total de 40 hectares nas freguesias de Recarei, Sobreira, Aguiar de Sousa e Parada de Todeia.

O PlanIT Valley prometia ser “a primeira cidade do mundo em que a tecnologia está presente desde a construção dos edifícios e dos espaços”, o que criaria “novas oportunidades a nível da energia, inovação e formas de interação entre as pessoas”. O projeto de arquitetura foi entregue a Pedro Balonas que, em 2023, faleceria vítima de um aneurisma. No entanto, não foi a morte de Pedro Balonas que comprometeu um projeto, que até contava com o apoio da Cisco, que quase nunca saiu do papel.

As falhas

Na análise de Steffan Black, o PlanIT Valley, um projeto de Steve Lewis, administrador executivo da Living PlanIT, ficou por desenvolver por dois grandes motivos:

  • Financiamento insuficiente; os potenciais investidores foram assustados pela crise económica que motivaria a entrada da “troika” no nosso país.
  • O planeamento fragmentado e a ausência de cronogramas de progresso concretos que prejudicaram a credibilidade.

“Os projetos de cidades inteligentes são investimentos significativos. Requerem um planeamento sólido, expectativas realistas e um apoio financeiro robusto. Estas cidades não são apenas sobre tecnologia, mas também sobre pessoas, economia e sustentabilidade”, reflete Steffan Black.

Songdo, Masdar e PlanIT Valley são exemplos de 3 cidades inteligentes que falharam nos primeiros 5 anos após o seu lançamento

Projetos urbanos ambiciosos impulsionados pela tecnologia podem falhar sem a devida previsão, planeamento e trabalho preliminar adequados. “Os decisores políticos, os promotores urbanos e as empresas de tecnologia devem aprender com estes erros. O fio condutor nestes fracassos é colocar as pessoas – as suas necessidades, as suas capacidades financeiras, o seu ambiente cultural – no centro do planeamento, e não a tecnologia. Equiparar cidades inteligentes a uma abundância de tecnologia é uma ideia mal interpretada”, refere a ZenShield.

As cidades inteligentes procuram melhorar a vida dos cidadãos, tornando os serviços mais eficientes, os ambientes mais sustentáveis e as infraestruturas mais resilientes. Esta lição ressoa com o último conselho de Black: “Uma cidade inteligente bem-sucedida é aquela que começa com os cidadãos e termina neles. É sobre eles. Sempre deveria ser.”

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