© Muntaka Chasant for Fondation Carmignac

Apenas 22% dos equipamentos elétricos usados são reciclados a nível mundial, segundo os resultados do 4º relatório “Global E-waste Monitor”, produzido pela Organização das Nações Unidas.

O Electrão, uma das entidades que gere os equipamentos elétricos em fim de vida, em Portugal, lembra que há um longo caminho a percorrer para que o país e o mundo possam apresentar melhores resultados nesta área.

O panorama da recolha e reciclagem deste tipo de equipamentos não é animador ao nível global e mesmo na Europa têm sido feitos avisos à navegação por parte de Bruxelas, indica o Electrão.

“Portugal faz parte de um grupo de países, já sinalizados pela Comissão Europeia, que está em sério risco de incumprimento da meta de 2025, de preparação para reutilização e reciclagem definida para os resíduos urbanos, em que se incluem os equipamentos elétricos usados”, indica esta entidade. 

► Para contribuir para o incremento da recolha e reciclagem de equipamentos elétricos a nível nacional, o Electrão afirma que tem reforçado a rede de recolha própria e tem apostado na proximidade ao cidadão com a oferta de serviços, de que é exemplo a recolha de eletrodomésticos porta a porta, atualmente disponível em seis concelhos da Área Metropolitana de Lisboa: Almada, Lisboa, Loures, Moita, Odivelas e Seixal.

► A rede Electrão coloca, atualmente, à disposição do cidadão 11.500 pontos onde é possível colocar equipamentos elétricos usados. São mais 3.000 do que no ano anterior, o que representa um crescimento de 35%. Significa isto que existe, pelo menos, um local de recolha por cada mil habitantes (consultar www.ondereciclar.pt).

A acumulação de equipamentos obsoletos por parte de particulares e empresas é um dos motivos que trava a evolução da reciclagem, mas existe outro problema preocupante, para o qual o Electrão já tem insistentemente alertado: o mercado paralelo.

Milhares de toneladas são desviadas, todos os anos, do circuito formal da reciclagem para o mercado paralelo, denuncia o Electrão: “Esta prática implica graves prejuízos para a saúde pública e para o ambiente, já que estes aparelhos são tratados sem que seja acautelada a sua descontaminação”.

Fiscalização e sanções

“É imperativo fiscalizar e sancionar os agentes económicos que operam neste mercado. Só com a atuação concertada de todas as entidades responsáveis será possível combater este flagelo e colocar o país no caminho do cumprimento das metas de recolha”, sublinha Pedro Nazareth, CEO do Electrão.

“O papel do cidadão é igualmente importante para continuar a melhorar os resultados, mas urge, também, envolver neste desafio todos os agentes da cadeia de valor, desde as autarquias, passando pelos produtores, distribuidores, operadores, organizações, tutela e entidades inspetivas”, defende a instituição.

O 4º relatório “Global E-waste Monitor” é elaborado por um dos organismos das Nações Unidas – UNITAR (United Nations Institute for Training and Research) em colaboração com o ITU (International Telecommunication Union) e Fundação Carmignac.

Outros dados do relatório da ONU

Segundo o estudo “Global E-waste Monitor”, foram geradas, em 2022, a nível mundial, 62 milhões de toneladas de equipamentos elétricos usados, um número recorde, que representa mais 82% do que em 2010.  Esta quantidade seria suficiente para encher 1,55 milhões de camiões de 40 toneladas, suficientes para circundar o Equador. Até 2030 é expetável que a quantidade de resíduos produzida aumente mais 33%, atingindo as 82 milhões de toneladas em todo o mundo.

Os dados indicam que apenas 22% dos equipamentos elétricos terão sido devidamente recolhidos e reciclados em 2022, o que corresponde a 62 mil milhões de dólares em recursos que não são aproveitados e que vão contribuir para aumentar a poluição, com consequências graves para a saúde pública e ambiente.

A previsão é que a taxa de reciclagem global desça para 20% até 2030 face ao ritmo do descarte. Entre os fatores que contribuem para esta estimativa está o progresso tecnológico, o aumento do consumo, as opções de reparação limitadas, os ciclos de vida mais curtos dos produtos, a crescente eletrificação da sociedade, as deficiências de conceção e insuficientes infraestruturas de reciclagem em alguns países do mundo.

De acordo com o relatório “Global E-waste Monitor”, o descarte de equipamentos está a aumentar a um ritmo cinco vezes superior à reciclagem em todo o mundo.

O relatório sublinha que se os países conseguissem elevar as taxas de recolha e reciclagem de resíduos eletrónicos para 60% até 2030, os benefícios – incluindo a minimização dos riscos para a saúde humana – excederiam os custos em mais de 38 mil milhões de dólares.

Recursos valiosos, que a União Europeia já identificou como matérias-primas críticas, essenciais para a transição ecológica e digital, no valor de vários milhões de dólares, são desperdiçados, queimados ou colocados em aterros em todo o mundo. Atualmente, apenas 1% de materiais raros é proveniente da reciclagem. Este é um cenário que a Europa pretende mudar, o que pressupõe aumentar os níveis de reciclagem.

Resposta ao desafio da Economia Circular

Apesar do panorama global, 2023 foi um ano de destaque para a reciclagem de equipamentos elétricos em Portugal, segundo o electrão, que avança que foram recolhidas e encaminhadas para tratamento mais de 27 mil toneladas destes resíduos.
“Este é o melhor resultado dos últimos anos e representa um aumento de 16% face a 2022, com mais 3.800 toneladas, e de 67% relativamente a 2021, com mais 10.600 toneladas recolhidas”, comenta a entidade.
Segundo o Electrão, a rede de recolha destes resíduos foi responsável pela recolha de mais de metade do total de resíduos. Registou-se aqui também um aumento de 23% face às recolhas do ano anterior, que passaram de 16 mil toneladas, em 2022, para mais de 20 mil toneladas em 2023.

Pedro Nazareth realça que as novas diretrizes que estão a emanar da Europa têm vindo a alterar alguns conceitos que podem influenciar a forma como são calculadas as metas de recolha e reciclagem, como é o caso do conceito de quantidade disponível para recolha.

“Entendemos que isto pode ser uma resposta ao desafio da economia circular. Este conceito vem pela primeira vez retirar a tónica da recolha e reciclagem com base no consumo ou na estimativa que fazemos da produção de resíduos e avalia a reciclagem pelo que está efetivamente disponível para recolher e reciclar, como produto da nossa sociedade de consumo”, analisa.

Esta alteração representa uma mudança de paradigma e procura responder aos desafios da economia circular. “Com uma economia mais circular, que pressupõe uma maior reutilização dos produtos na fase do consumo, o que é expetável é que os resíduos a serem geridos venham a diminuir e não a aumentar”, sublinha Pedro Nazareth.

“Por um lado, vamos ter entidades gestoras a recolher resíduos para atingir metas de reciclagem. Por outro lado, temos aqui um conjunto de iniciativas de promoção da economia circular que querem reter produtos na fase de consumo não sendo gerados os resíduos necessários para cumprir metas de recolha e reciclagem. É um paradoxo da economia circular a que a regulação procura responder com um novo conceito para o cumprimento de meta”, enfatiza.

Este conceito foi aplicado ao regulamento de pilhas e baterias usadas, mas poderá estender-se à gestão de equipamentos elétricos usados e até poderá ser aplicado no contexto das embalagens.

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